10.12.2011
Hoje
inauguro este relato que irá descrever uma viagem em comboio ao fim do mundo de
motorhome.
Tudo
começou quando o Carlos Martins um amigo de gosto comum para motorhome
me escreveu perguntando coisas da Argentina e Chile porque ele e uns amigos
estavam planejando fazer esta viagem em comboio. Respondendo me veio à saudade
de visitar novamente e perguntei se me aceitavam como companhia e a resposta
foi positiva.
Este relato vai confrontar uma situação que tem muitas
coisas para dar errado, a própria viagem em muitos equipamentos (o previsto até
agora: Um motorhome Mercedes 915 Trailemar, um
F4000, uma Renault Trailemar, uma Iveco, um caminhão home e o meu que é uma
Scania da Industreiler) o que gera uma logística de viagem bastante complicada.
Fácil de entender: Passe na fronteira multiplique pelo número dos viajantes: por
água na casa, fazer xixi, etc., além disto, a viagem coincide com as férias e
aí... As estradas estarão lotadas e cada um terá a sua maneira de decidir
ultrapassagens, as filas nos restaurantes, abastecimento, são tantos variáveis
que só as vivendo saberei.
O destino será o Ushuaia, quanto às costuras não sei por que
não participo dos planos e nem conheço os participantes.
Vou com o espírito de aventura, boa vontade e sem
calendário.
25.12.2011
Estou parado no posto Guarany logo após a saída do contorno
sul de Curitiba aguardando o Carlos e a Débora que estão vindos de São Paulo.
Saí de São José dos Pinhais com 49.507 km.
Minha situação atual me é inédita, não tenho nada,
absolutamente nada de compromisso para o presente e para o futuro, o último que
era a minha mãe encerrou-se dia 31 de outubro com o seu falecimento. A empresa eu
vendi no inicio do ano e nem endereço fixo tenho agora. Ainda escolho o lugar
que será o meu porto embora saiba onde ele devia ser, mas para isto eu fico
dependente da decisão de outra pessoa a quem dedico este relato.
O ponto de encontro de todos ficou definido em Mar Del Plata
onde assistiremos a largada do rali Dacar que neste caso será Mar Del
Plata/Lima. Os outros companheiros irão se encontrar em Piçarras e farão o
passe de fronteira em São Borja. O Carlos e eu faremos isto em Foz entrando na
Argentina por Puerto Iguazu.
Posto Guarany na rodovia do Café ponto
de encontro e início de viagem.
Viagem tranqüila e lenta tanto que paramos para dormir no
posto Três Pinheiros.
Foto by Débora
26.12.2011
Saímos bastante tarde e isto é o primeiro teste de
tolerância, pois os hábitos divergem completamente, enquanto eu acordo cedo o
casal ao contrário. Vim preparado para isto até porque quando estivermos em
quatro motor homes a coisa irá agravar bem mais.
Passamos por Cascavel na hora do almoço e não perdi a
oportunidade de ligar para o Diogo Pachenki o nosso piloto no Stock Car para
almoçarmos juntos.
Da esquerda: Débora, eu, Diogo, Jairo
e Carlos.
Em
Foz Carlos e Débora foram fazer compras no Paraguai enquanto eu tirava uma
soneca, depois abastecemos e já dormimos no posto para fazer a fronteira
amanhã.
27.12.2011
Novamente
conflito de horário, mas escrevo isto apenas para mencionar, pois vim preparado
para isto e muito mais. Adoro o amanhecer na estrada, luxo este que nesta
viagem terei que dispensar.
Na
fronteira fiz minha saída do Brasil rapidamente (Carimbam o passaporte a
pedido) e quando voltei ao estacionamento o casal ainda não tinha saído do
motorhome então só os avisei que já iria à frente fazer a alfândega argentina.
Muito
fácil a passagem e muito atencioso o atendimento, a conversa girou sobre
automobilismo e a revista foi superficial, eu saindo o Carlos já estava na
fila, por rádio o avisei onde eu estaria lhe esperando um pouco além em um posto
ACA YPF que fica 500 metros após a fiscalização.
Estou
escrevendo neste momento porque já estacionado adiante o Carlos me avisou que
tinha perdido a carteira de vacina e aí a coisa ficou critica, eu o ouvia e ele
não me recebia. Falou que ia voltar para Foz para se vacinar novamente enquanto
eu urrava no microfone que esta carteira não é necessária. Então são nove e
trinta ainda pelo horário brasileiro de verão e já estou com dois cafés
tomados, fotos transformadas para tamanho menores, blog escrito, dinheiro já
mudado para pesos e vou tomar mais um cafezinho.
Chegaram
depois de pegarem uma segunda via da carteira de vacinação e daí com ele atrás
não percebi quando virei para Posadas ele seguiu adiante. Na primeira
fiscalização rodoviária parei (por conta não a pedido) para esperá-los e nada.
Pedi a policia que o fossem procurá-los e assim o fizeram, quando voltaram me
disseram que tinham ido até a fronteira e nada e que provavelmente eles pegaram
o caminho das cataratas ou do aeroporto então só me restou esperar. Eles não
perceberam que eu tinha virado e pior, estava com o botão de freqüência do
rádio alterado o que dificulta a recepção.
Já
estacionados alguns quilômetros depois de Paso de Los Libres depois de uma
viagem muito gostosa pelas boas rodovias Argentinas digo que as pequenas
diferenças de horário afetam muito pouco e são absolutamente compensadas pelo
companheirismo. Agora um banho, cinema e cama!
28.12.2011
Atravessando
a província de Entre Rios sempre muito divertida e emocionante com teatros
montados passo a passo onde os atores somos nós e a fiscalização rodoviária. Volto
a dizer que muitos brasileiros se incomodam barbaramente por isto e aceita as
atrocidades brasileiras como destino. A Argentina nesta comparação é muito
barata! Quem realmente não quiser passar por isto não entre nas províncias de
Entre Rios e Corrientes, faça a fronteira em Foz e siga pelo meio da Argentina
ou oeste, vai gastar mais em diesel do que em achaques, mas ficará com o
consolo que as suas virtudes foram preservadas.
Agora
são vinte e três horas e algo fantástico aconteceu: Para Mar Del Plata vindo de
onde viemos cruza-se Buenos Aires pelo centro e o fizemos em pleno horário de
rush (18/19h), impressionante o movimento e o mais ainda fora a beleza da
cidade, um trânsito fluido e muito rápido tanto que na aproximação a velocidade
permitida é 130 km/h e dentro da cidade 80 km/h.
Foto by Débora dentro de seu
motorhome.
Isto
mexeu comigo, mas o que me eletrocutou de fato foi na área de pedágio
encontramos o primeiro caminhão do rali Paris/Dacar.
Mais
adiante paramos para pernoite em posto da Petrobras e eis que começam a parar
vários caminhões da competição. Só vendo para crer! assim como o automobilismo
de competição tem seus personagens característicos de físico o rali também os
tem, um pessoal gigantes e muito fortes não de academia e sim da própria
natureza.
Hoje
só foi uma troca distante de cumprimentos, mas só imaginar que os próximos dias
eu estarei próximo a todo este movimento desta que é a maior competição do
mundo no gênero já me dá a tranqüilidade que esta viagem está paga e todo o
resto será lucro extra!
Ainda sem nomes, até amanhã, até
amanhã...
29.12.2011
Pedi
ontem à noite para o Carlos que abrissem uma exceção e saíssemos bem cedo hoje,
somente esta vez frisei, mas tal não aconteceu e fiquei vendo os carros que
irão competir passando na estrada. Acabei indo sozinho já com o sol nascido até
porque iria ter que parar para abastecer e sobre esta curiosidade e outras eu comentarei
em um capitulo a parte.
Agora
estou no camping em Mar Del Plata chamado Complexo Calasanz e o Carlos já
chegou também. Já sei que só virão mais dois equipamentos.
A
incompatibilidade no timing do tempo e na maneira de guiar está me cobrando um
preço e agora já me vem o pensamento que ir até o Ushuaia em grupo pode ficar
um jogo muito duro para a minha tolerância. Imagino que em quatro equipamentos então
isto vai se acentuar mais. Por enquanto a minha decisão já está de deixar o
grupo e curtir solo abdicando de ir ao fim do mundo e indo direto a El
Chaltén para ver de perto a montanha Fitz Roy. De lá ir para o
Chile e ir ao Atacama para voltar pelo Paso de Jama.
Os
problemas encontrados que estão me pegando além do fato de unir as vontades do
grupo são: A despesa está muito além do esperado, o diesel na Argentina estão
em média 25% mais caro que no Brasil, um café da manhã simples custa em volta
de dezessete reais contra no máximo dez do Brasil, o pedágio que na primeira
parte da viagem estava bom neste setor custa trinta pesos.
Outra
coisa que está pegando firme é o péssimo atendimento e também a falta de combustível
e isto é aqui que pode ser considerado o lugar mais rico da Argentina. Água até
agora nada, para limpar o pára-brisa me ofereceram um balde com uma merreca de
água escura e um parto para o caboclo entender que eu precisava de uma vassoura
também. O frentista limpar nem pensar, eu pedi a um o favor em outro posto e
ele limpou só um vidro. Nos outros se conseguisse abastecer já era uma vitória.
Aqui
no camping também não tem água próxima então quando sair tem que levar o
motorhome a outro local para encher a caixa e o resto da viagem será sempre decidida
pela água que eu arranjar, como minha caixa é grande ela agüenta voltar até o
Brasil.
Agora
é meio dia e vou almoçar uma das três mil latas de atum com batatas que eu
trouxe para estas eventualidades, depois banho um táxi virá me buscar para eu
ir até onde o grupo do Rali está. Que eles tenham de sobra à energia e o animo
para me darem um pouco porque é a primeira vez em trocentas viagens para cá que
estou precisando disto.
Acabei
indo tarde porque tirei uma soneca reparadora, a Janine que trabalha no camping
nos providenciou um carro e o Carlos e a Débora foram juntos. Curtimos a
intensa movimentação à distância e a noitezinha voltamos ao camping onde tinham
chegado os dois outros equipamentos com as duplas Erydson e Euliane e Rogério e
Edna. Primeiro contatos que se estenderam até tarde da noite incluindo uma
janta deliciosa em que o Rogério fez uns bifes (Gengis Khan) com molho de gengibre e shoyo mais arroz e saladas.
30.12.2011
Onde
eu estou parado no camping é muito distante deles e não tem água e hoje abriram
o caminho para o meu ônibus passar assim me uni ao grupo. Agora estou muito bem
instalado, o almoço foi um estrogonofe novamente patrocinado pelo casal pelo
casal Rogério e Edna com a participação dos outros, da minha parte levei meu
garfo e faca.
Sono
bem melhor à tarde e sinto que estava vendo fantasmas que não existe, um sim
que é a saudade daquela que eu amo e um dia partiu, ops isto dá música!
Agora
um banho e depois todos nós iremos jantar no Cassino.
Rogério Marcolino e eu no cassino foto
by Débora.
Tudo
nos conformes sem céu nem inferno nós chegamos de madrugada em nossa base.
Vimos onde vai ser dada a largada simbólica do rali para amanhã sabermos onde
ficar.
31.12.2011
Deu
na televisão que a largada será às três horas da tarde então combinamos de ir
almoçar no centro e já ficarmos por lá. Enquanto isto nós ficamos trocando
figurinhas e tudo está em paz. Conversamos ontem também sobre porque comboios
como o nosso fracassam em viagens maiores, todos demonstram vontade e
tolerância para as coisas darem certos e até agora o saldo é positivo.
Passamos
à tarde no centro de Mar Del Plata onde teve show de aviação acrobática,
desfile de banda e a largada simbólica do rali. O toque infeliz foi que
roubaram a carteira do Erydson que felizmente por prever algo assim tinha
deixado os cartões e documentos na casa.
Um
dia lindo com um céu totalmente azul embora na sombra estivesse frio. O rali de
fato larga amanhã às quatro horas da manhã e como são quase quinhentos competidores
deve se prolongar por muito tempo.
Já
estamos em 2012 e ceamos todos mais um casal argentino no camping. Tudo
perfeito, a comida estava deliciosa embora eu me sinta um estorvo neste grupo
tão alegre.
01.01.2012
Primeira
manhã do ano nós nos juntamos para a foto oficial e para as combinações de
viagem. A idéia é percorrermos duzentos
quilômetros e daí parar no primeiro posto para reunir o grupo caso alguém se
desgarre.
Da esquerda para a direita: O casal simpático
argentino Susana Falcone e José Luis Esponda, Carlos Martins e sua esposa
Débora Rodrigues, o casal Erydson Jonco Aquino e Euliana Catarina Furlan
Aquino, eu e ao lado o casal Edna Sirlei Gasparello Marcolino e Rogério
Marcolino. Embaixo uma linda Schnauzer dos argentinos para relembrar a doce Tequila que pelo menos ela eu
acredito sinta saudades de mim!
02.01.2012
Primeiro
dia de viagem com os quatro equipamentos, uma pequena perturbação na saída
porque o combinado no dia anterior de fazermos a partida, abastecido no YPF
próximo não ficou bem entendido e depois na estrada onde o combinado era manter
noventa quilômetros por hora velocidade que dois carros com controle automático
o fazem com facilidade então bastaria os outros dois seguir, pequenas correções
em comboio se fazem com os atrasados aumentando em cinco quilômetros, mas isto
não aconteceu então na primeira parada os ânimos aumentaram de temperatura com
insinuações que a minha velocidade era maior. Não era em momento nenhum, mas...
Invertemos
as posições com o outro equipamento do Erydson na frente e aí eu percebi o que ocorria
realmente em espaços limpos tudo estava perfeito agora se alguma coisa
interferisse o retorno à velocidade cruzeiro demorava como eu faço a reação
imediata quanto à volta da velocidade este detalhe me fazia abrir uma distância
maior dando a eles a falsa impressão que eu estava mais veloz. Conclusão que
algumas vezes eu tinha que usar freio ou manter a velocidade no pé. Também a
questão de ultrapassagem, anos de experiência na estrada me fizeram ser muito
decidido nesta questão e aí a diferença de tempo aumenta mais ainda.
A
convivência em grupo me é inédita e não vale a experiência de comboio com o
Stock Car que são ponto a ponto curtos e todos vão para trabalhar.
Outra
coisa curiosa: Por duas vezes meu consumo foi inferior ao da Mercedes 915
revelando que a minha Scania com treze toneladas está fazendo um consumo acima
de seis quilômetros por litro que é uma coisa inesperada.
Visível
que o maior problema nesta viagem é eu mesmo, todos estes anos viajando somente
com a Iara ou sozinho talvez não fosse só pelo meu gosto e sim pela dificuldade
que eu tenho nos relacionamentos, um exemplo disto é alguém me cumprimentar com
um como vai você? a resposta que vejo todos aplicarem é tudo bem, já eu fico
atordoado porque quero responder literalmente a minha sensação no momento ou
nos momentos anteriores, isto é uma boa definição para um chato de galocha.
Também não aceito conversas com teor de realidade e que sejam feitas sem
realmente a pessoa pensar o que está falando, um exemplo comum é a menção de
coisas religiosas, arf! acreditar em Jesus quando todos sabem que Oxossi reina
absoluto hehehe.
Um
brinde ao meu amigo Nelson Umbria que me traz a sanidade já que ambos caminhamos
com os pés no chão. Cito-o por ser uma pessoa próxima porque espalhados pelo
mundo comungo a minha visão com Carl Sagan, Richard Dawkins, H. L. Mencken e tantos
outros.
Olhando
por este prisma acho que entendo o que a Iara passou convivendo comigo tanto
que depois que ela se separou duas atitudes ela tomou, parou de fumar
imediatamente e já se envolveu com espiritismo, que o zefinho preto velho lhe
faça boa companhia porque mesmo que eu a ame profundamente não consigo imaginar
uma idiotice maior, pensando bem posso, mas esta já é de bom tamanho.
Com
esta visão mais clara sobre mim e as coisas que me cercam me volta à idéia que
esta minha participação no mundo já está completa. Vivi e fico muito feliz com
tudo que vivi encontrar algo que me faça ter vontade de continuar e ainda assim
eu poder continuar sendo o que eu sou me parece uma tarefa muito ingrata e já
me basta saber que nesta contagem decrescente da vida a única coisa garantida é
as dores da velhice.
Escrevo
isto estacionado no Camping Colorado na municipalidade deste mesmo nome. Os
companheiros irão assar umas carnes e eles foram até a cidade comprar os
ingredientes visto que quando se entra na Patagônia tudo que é animal e vegetal
é retido nesta fronteira.
O
camping é excelente e vale a pena acomodar os horários para usufruí-lo. Eu
optei em não participar do jantar hoje ficando no motor home para escrever. Tem
mais este conflito de eu estar só na companhia de três casais e acredito que
amanhã isto terminará com eu me despedindo e fazendo o resto da viagem solo e
explico o que mais me leva isto, eu me convidei porque tinha certeza que uma
pessoa viria comigo e infelizmente algo aconteceu que eu tive que recusar, eu procurei
mais três senhoras que tinham esta possibilidade e ambas tinham seus programas
prontos e somado a isto tive um contato mais próximo com a Iara antes do natal
e ela aceitou que conversássemos na volta. Então para preservar minha pureza...
É
um sonho egoísta este meu de voltar a tê-la em minha vida e isto voltou a
disparar somente porque por ocasião do funeral da minha mãe a sua mãe comentou
com uma terceira pessoa que nós se amávamos e isto me fez pensar que talvez
fosse realidade por parte dela já que da minha parte eu tenho certeza, mas mãe
é mãe e mesmo que também tenha umas idéias religiosas escabrosas na cabeça é
muito mais pé no chão e enxerga no convívio amoroso entre duas pessoas uma
grande dose de sacrifício para a manutenção da união. O fato é que a Iara não
tem esta dependência emocional de mim e nem financeira, nosso acordo na
separação possibilita a ela uma vida tranqüila desde que ela não acabe doando
toda a sua renda para o espírito do Xavier ou então para o pastor da igreja do
quadrilátero do espírito santo. Então segunda a nossa sobrinha Alike quando
perguntei a sua opinião (Pela internet) como estava a Iara ela comentou que
nunca a tinha visto tão feliz como agora, então pelo amor que sinto a ela o meu
presente além deste relato que a ela dedico e lhe dar completo sossego não mais
a procurando.
Sobre
amanhã: Quando os casais foram à cidade do Colorado fazer compras ficou o
Carlos Martins e eu no camping e eu já o avisei que sairei cedo em direção a
Puerto Madryn porque adoro o amanhecer na estrada. Combinei encontrá-los em um
platô na entrada da cidade onde uma vez a Iara e eu passamos a noite com a
cidade aos nossos pés. O que ele não sabe é que aí me despedirei deles.
03.01.2012
Quatro
e trinta da manhã na estrada que já estava se iluminando, embora o sol aparecesse
efetivamente as cinco e cinqüenta e um. Não aconteceu o que eu esperava e pior
ainda nestes devaneios não percebi uma perdiz (talvez seja embora ela tivesse
um corpo de galinha de angola e na cabeça uma tiara na forma de cabelo de
moicano). Um choque que até o tempo parou ao enxergar os olhos dela e sentir o
seu espanto. Tarde demais!
Café
da manhã tomado e fui completar o sono.
Já
estou encostado em Puerto Madryn em uma concessionária Scania. Eles abrem às
duas e meia da tarde e vou pegar os endereços de todas elas na Patagônia. Estou
parado bem visível na estrada caso o comboio passe embora meu feeling indique
que eles não vão parar. Mesmo assim daqui irei para o platô combinado e
passarei a noite lá. Amanhã me encaminho para Caleta Olivia onde irei ficar
mais tempo já que tenho interesse em morar lá então verificarei preços de
terrenos, construção, disponibilidade de água e outros.
São
três e trinta da tarde e estou no platô combinado. Neste lugar a Iara e eu já
passamos a noite para curtir a cidade iluminada, de fato só a vimos vagamente,
pois choveu torrencialmente e interminavelmente. Então por ela colhi uma pedra
e aí vai à foto.
Platô em Puerto Madryn com vista para
toda a cidade.
A
falta de combustível aliado a pouquíssimos atendentes fazem filas homéricas em
todos os postos, hoje fiquei em uma porque com diesel não dá para esperar. A
boa notícia é que os preços das coisas estão mais baixos aqui na Patagônia.
Eu
nunca viajei em janeiro por causa das férias e a minha premonição se justifica
com turistas e fila por todos os lados. O pior que isto impossibilita qualquer
interação com os locais deixando um gosto de comida sem sal.
Seis
e quarenta da tarde e eles não apareceram então isto resolve o nosso problema e
amanhã pela manhã vou direto a Caleta Olivia. Viagem solo são meu destino e meu
gosto com exceção de uma companhia.
04.01.2012
Wonderful
Day! Assim exclama Richard Dreyfuss no filme A grande barbada depois
de ter arrasado no jóquei e eu repito o mesmo após este especial trajeto. Como
dormi cedo acordei bem disposto e senti o amanhecer ainda no platô:
Amanhecer em Puerto
Madryn
Com
o sol já brilhando parei em um posto YPF e toquem-se as trombetas havia café,
verdade que só isto porque o resto do restaurante ainda estava fechado e fiquei
feliz que pelo menos o atendente me arrumou dois bolinhos para fazer a mistura.
Aproveitei e enchi o tanque de gasolina (aqui se chama nafta) do gerador sem
filas.
Passando
Trelew um pedido de carona
prontamente atendido, era o Victor motorista de ônibus municipal que
curiosamente trabalhava em Comodoro, uma excelente conversa assim como foi outra
carona o Raoul que era bombeiro em Sierra Grande. Nesta imensidão plana dos
Pampas uma cidade com este nome parece maluquice, mas na verdade a serra existe
é pequena e muito bonita. Com o Victor a curiosidade foi que ele necessitava
estar às onze horas no trabalho e aí foi um tiro só até Comodoro, dez e
cinqüenta e cinco depositei-o na frente do local do seu trabalho.
Comodoro
Rivadavia é uma cidade impressionante e hoje neste dia maravilhoso some-se um
sol espetacular sem estar quente demais, um céu azul extraordinário, zero vento
e o mar parado e com um tom azul tão forte como nunca vi igual. Estacionei
minha casa no centro e dei umas voltas a pé esperando à hora do almoço.
Acho
que há uma hora já estava a caminho de Caleta Olívia e que caminho, para não
ser sacana ou acharem que estou exagerando vai aí uma foto e lembrem-se é um
pedacinho e uma fotografia jamais é o que realmente nossos olhos vêem.
Enxerga-se o fundo do mar facilmente.
E
cheguei a Caleta Olivia.
Minha cidade preferida na Argentina!
Entrei
e estacionei no centro e já sai para conversar sobre como funciona a compra de
propriedade por brasileiro e para isto um advogado seria um bom conselheiro e
também um corretor de imóveis para ver se os preços são compatíveis com a minha
pretensão. Bom, aqui é a Argentina de sempre ou até mais, próximo a quinze
escritórios de advogados fui e todos ou trabalham a partir das dezessete horas
três dias por semana ou estão de férias então daqui a pouco tomarei um banho e
retornarei (São cinco horas e estou escrevendo). Só o cassino estava aberto,
todo o resto estava fechado e adoraria pela comédia que seria se os
restaurantes também fechassem para o almoço.
Fui
até a praia que aqui não tem areia e sim pedras, imediatamente colhi uma para
dar de presente para você Iara, pois foi junto com você que eu mencionei pela
primeira vez o quanto tinha me agradado esta cidade.
A
água estava tépida para os pingüins of course e as pedras mesmo que lisa é uma verdadeira
tortura para os pés que se afundam em cada pisada. Porém a beleza compensa e a
mais já fui a uma concessionária de quadriciclos Can-Am e escolhi um fantástico 800 cilindradas por $120.000, de
resto é fechar negócio em uma casa e entender como funciona a emigração.
Em
um olho mais clínico a cidade tem algumas coisas que merecem destaque como uma
intensa pichação, obviamente os trogloditas que fazem isto esperam que milhões
de anos no futuro alguém desenterrando possam perceber que havia uma civilização
rudimentar aqui. Outro são as calçadas que cada loja põe a sua em uma altura
então topada no pé são rotina.
Então
vamos ao banho, advogado depois e mais ainda: Sinto que o vermelho 27 me chama
e talvez o quadriciclo seja mais um presente neste belo dia.
Pensando
melhor vou prolongar o que eu chamo a dança do banho para comentar o que era o
principal deste blog se a viagem para cá em comboio é possível. Não o foi para
mim e vou dizer antecipadamente que não será para nenhum dos casais. Neste
nosso pequeno interlúdio foi fácil eles ficarem unidos porque havia um alvo
fácil que era eu, mesmo assim olhando os comportamentos sem eu na mira (E eu
merecia) digo que podem até se manter juntos por uma concepção primária de um
deles que diz que nós estávamos em território inimigo, mas deixarão de usufruir
muito, muito mesmo do que melhor a Argentina tem a oferecer e, além disto, as
diferenças irão se acentuar e daí em vez de olharem as grandezas ficarão presos
aos pequenos ódios armazenados.
Olha
a dança do banho em ação, fui bater uma foto para mostrar o quanto no centro de
Caleta Olivia estou parado e irei ficar. Duas quadras da praia, três do
cassino, vários restaurantes a escolha e muitas lojas de tudo.
Ao fundo uma estátua gigante mostrando
um operário da indústria do petróleo base econômica da região.
05.01.2012
Ontem
nenhum advogado (escreve-se abogado) e nenhum corretor imobiliário no horário
que estavam em suas placas em compensação já investi no cassino $1.200,00 em um
torneio satélite de pôquer que perdi no final e justo para um engenheiro de
construção em que nos cofee breaks trocamos figurinhas para ele construir para mim, além disto,
tinha na mesa o chefe de polícia de Caleta e mais um companheiro que indicou
uma situação possível com terras estatais bastando simplesmente eu dar um alô
para a Cristina Kirchner. Como a mesma está solteira
quem sabe não rola um tango?
Outro
companheiro de jogo falou-me de um excelente camping no final da rua
independência a caminho de Truncadas, o problema é que se ir para lá tudo irá
ficar um pouco mais distante.
Escrevo
isto as duas e trinta e cinco e acabei de chegar do cassino, a madrugada está
deliciosamente gostosa de clima e o movimento da cidade ainda é bastante
grande.
Dormir
tarde quase sempre dia seguinte eu mal. Café da manhã nem pensar, nada aberto
em Caleta então chocomilk e bolacha. Decidi ir procurar o camping e acabei indo
para a estrada, o vento patagônico se apresentou para matar a saudade. Vou
descer até o Ushuaia e El Chálten para clarear
as idéias.
Parei
para dormir duas vezes, sonhos confusos e muito ruins mesmo que parado o
motorhome balance tanto parecendo um ninar de bebê.
São
vinte e uma horas e onze minutos e o dia está completamente claro o que
significa noites curtíssimas, estou parado na entrada de Puerto
San Julian e neste YPF não me forneceram água e daí também não abasteci. Vou
entrar na cidade amanhã e completar tudo. No momento o frio está de rachar.
Como
vai você?
Eu preciso saber da sua vida
Peça a alguém pra me contar sobre o seu dia
Anoiteceu e eu preciso só saber
Como vai você?
Que já modificou a minha vida
Razão de minha paz já esquecida
Eu sei que gosto muito de você
Eu preciso saber da sua vida
Peça a alguém pra me contar sobre o seu dia
Anoiteceu e eu preciso só saber
Como vai você?
Que já modificou a minha vida
Razão de minha paz já esquecida
Eu sei que gosto muito de você
06.01.2012
Estou em Rio Gallego estacionado frente a um supermercado Carrefour. A
viagem tranqüila e com um vento de popa que significa quase total ausência de
som de rodagem e baixo consumo de combustível.
Parei para comprar farinha, pimenta, detergente e
água, em breve começarei a enfrentar as 2.000 latas de dobradinha embarcadas.
Continuo parado porque já aproveitei para fazer a lavanderia e eles vão me
entregar as roupas até as vinte e uma horas.
O combustível nesta região é muito mais barato, em Piedra Buena abasteci
tudo incluindo água então passarei a noite aqui e amanhã em Ushuaia. Agora
lavanderia muito caro.
07.01.2012
Estou parado no Estreito de Magalhães, a viagem de
Rio Gallego é curta e rápida, a fronteira idem. A má noticia é que o
restaurante que ficava aqui não existe mais então sem café arf! O frio está
escandaloso! O estreito separa a Patagônia da Terra do Fogo.
Até agora nada de ser feliz e me questiono o que
estou fazendo aqui. Tudo tem fila e todas muito lentas e ninguém têm tempo para
nenhum tipo de relacionamento, talvez isto explique a mágoa de tantos
brasileiros que viajam nesta época.
Estreito de
Magalhães, visão a partir do antigo restaurante.
A boa notícia: Na balsa tem uma lanchonete com café
e Pancho que é um nome para o hot dog.
Atravessando
o Estreito de Magalhães.
Parado na fronteira Chile/Argentina no retorno.
Três vezes vim para o Ushuaia, na primeira a Iara e
eu desistimos porque era tanto gelo na pista que quase certo o Paso Garibaldi
estaria intransponível além de que dirigir no gelo é a coisa que mais se
aproxima de um horror. No segundo maravilhoso e onde pela primeira vez em
milhão de quilômetros de viagens escrevi um diário e agora solo desisti porque
a estrada (+- 200 quilômetros de rípel) da parte de terra chilena está
indecente e a velocidade que eu estava mantendo era aproximadamente vinte
quilômetros por hora (eu e os caminhões que ainda eram mais lentos), e o bando
de muriçocas (carros pequenos) passava em muita velocidade atirando pedras como
se fossem centenas de estilingues. Para se ter idéia do respeito de quem
conhece a gente na ultrapassagem ou no cruze diminui a velocidade para cinco
quilômetros por hora, um pára-brisa quebrado é um ingresso para o inferno.
Nenhuma segunda vez no Ushuaia vale este preço de dividir o espaço com este
pessoal.
Neste momento escrevo parado na fronteira,
atualmente só se faz uma aduana por divisa. A fila está gigantesca então talvez
até durma por aqui.
Fila para
quem vai à segunda aduana, quem vem não precisa parar nesta. Foto com zoom para
evitar atritos possíveis.
Estacionado
no pátio dos caminhões da segunda aduana, deve haver mais de duzentas pessoas
na fila.
Daqui irei para El Chaltén cumprir o que prometi
que ir perto do Cerro Fitz Roy, verdade que para isto ser cumprido
integralmente a Iara tinha que estar comigo...
Estou curioso como está o comboio? Como eles são
freqüentadores de encontros a possibilidade deles administrarem esta balburdia
de turistas é bem melhor. A Iara e eu quando começamos a viajar para cá
ficávamos horas sem cruzar com ninguém, a noite então ninguém viajava mesmo e
nós saíamos da estrada para dormir no deserto. Um exemplo foi que passando a
noite por uma cidade à direita sabíamos que lá tínhamos que encontrar
combustível e não achávamos o posto. Quando estávamos nos preparando para
voltar um carro nos alcança e nos sinaliza para parar. Ele desce e pergunta se
estávamos procurando o posto, diante da nossa afirmativa ele avisa que o mesmo
é dentro da cidade. Este é uma dos retratos deste povo maravilhoso e da
Argentina de anos atrás!
08.01.2012
Parado em La Esperanza a caminho de El Chaltén
aguardando a hora do almoço. Um dia nublado com poucos chuviscos e já um pouco
excitado pela proximidade dos Andes.
Viajo com o Chico me fazendo companhia:
A sua
lembrança me dói tanto
Eu canto pra ver
Se espanto este mal
Mas só sei dizer
Um verso banal
Fala em você
Canta você
É sempre igual
Sobrou deste nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis
Não sei se você ainda é a mesma
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esqueceu
Eu canto pra ver
Se espanto este mal
Mas só sei dizer
Um verso banal
Fala em você
Canta você
É sempre igual
Sobrou deste nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis
Não sei se você ainda é a mesma
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esqueceu
A malha viária argentina é extraordinária, um
tapete maravilhoso que me propicia navegar nos meus pensamentos. Seria muito,
mais muito bom se houvesse um jeito de apagar a memória seletivamente, quanta
dor desapareceria! Por outro lado mais da metade da minha vida foi preenchida
pela sua presença então...
Minhas sensações explicam o meu gosto pelo filme O
feitiço do tempo. Quantos anos o ator principal levou para tornar perfeito um
único dia? Eu levei aproximadamente trinta anos amando-a a cada dia embora isto
fosse insuficiente para entender como administrar este amor. Agora que penso
saber já é tarde e o que sobra neste mundo é um pequeno pedaço de terra que me
cabe neste latifúndio (plagiando Chico).
Vou almoçar porque aqui tem uma hamburguesa dupla
que na foto dá arrepio de bom e deve ser com o pão argentino cuja massa poderia
ser usada para fazer estradas de tão sólido que é. Mudei, comi um bife a cavalo
com fritas muito bom. Antigamente o pão por aqui era massudo, atualmente não.
Parado novamente: Iara lembra-se quando a caminho
do Calafate chegamos a um altiplano que se descortinava uma paisagem incrível?
Pois parei aqui me lembrando de você. Você viu o Cerro Fitz Roy e eu fiquei em
dúvida e era ele mesmo e estou indo para lá.
Na direita El
Chaltén, na esquerda El Calafate, foto minúscula perto da real grandeza que os
nossos olhos captam.
Na Argentina isto é comum, centenas de quilômetros
através do pampa e de repente acontece algo deslumbrante com uma mudança
radical na paisagem.
Na estrada de El Chaltén até duvidei da nossa vista
para o Fitz, andei talvez uns cem quilômetros por aquele vale que vemos lá de
cima e daí virei novamente formando um Z gigantesco o que explica como se
enxerga do platô e tudo isto com paisagens monumentais e os Andes ao fundo decorando.
Finalmente eu vi, sei que vi como diria o Piu Piu
quando enxergava o Frajola eu vi o Fitz Roy, será, será...
A foto abaixo foi feita algum tempo depois de eu
ter achado que o via, a quarenta quilômetros de distância não havia mais
dúvidas.
Cerro Fitz
Roy a quarenta quilômetros.
Nenhuma
duvida!
Embora o pico estivesse encoberto pudicamente a
emoção tomou conta de mim de uma maneira absoluta, gargalhava enquanto lágrimas
escorriam!
Acho que neste instante dos conhecidos apenas o
Tiaraju entenderia meus sentimentos. O próprio tem na sua agenda tentar o cume
desta montanha e digo agora que estou parado aos pés dela que o desafio é
imenso!
Este parado aos pés dela é literal, hoje o cansaço
da emoção me impede de sair e mostrar, mas amanhã de madrugada sei que o
primeiro lugar que o sol irá bater será no seu cume e poderei assistir a isto
da janela da frente da minha casa.
09.01.2012
O sol bateu sim, mas no edredom de nuvens que
cobria completamente o Fitz Roy. Voltei a tirar uma soneca porque na Argentina
até a montanha acorda tarde.
Aparentemente ele vai dormir de dia também, pela
quantidade de neve que se vê nas montanhas adjacentes lá em cima deve estar
bastante frio. Fui para a cidade de El Chaltén e que bela surpresa, muito
acolhedora! Parei para tomar um café em um lugar chamado La Morena.
Aqui a interação é constante, motorhome de outros
países e juventude as pencas e todas resplandecendo saúde. Volto ao café da
manhã: Panquecas com peras, caramelo, nata e cerejas mais café com leite. Este
é o mundo para o qual nasci! E os preços uma covardia de tão baixos. Na foto
abaixo o meu desayuno,
a companhia é um brinde, esta linda jovem chama-se Muriel e é de Punta Arenas,
sua família está parada aqui por falta de gasolina. Meu motorhome está parado na
frente e digo que até agora não tive nenhuma dificuldade quanto ao seu tamanho,
impressionante como o vesti bem.
Soledad a moça que administra este restaurante me
indicou o camping próximo chamado El Refugio e daqui escrevo. Quando clarear
fotografarei minha posição, da minha janela direita o Cerro Fitz Roy ainda
coberto.
Agora irei dar uma volta a pé na cidade para
entendê-la.
Cidade pequena e muito linda, todas as necessidades
de fácil alcance e digo ainda desconhecida da maioria. Há poucos anos atrás o
caminho era de ripel e só agora está asfaltado então isto explica. A beleza da
paisagem é descomunal.
Colhi uma pedra para a Iara que queria juntar com
uma camiseta muito engraçada escrita El viento patagónico, as letras assim como uma ovelha
agarrada em uma arvore identificam esta marca registrada da Patagônia que são
os ventos constantes e muito fortes. Infelizmente não havia o tamanho, só para
chicos então a presenteada será a Joana.
Não tem um passo que eu de sem sentir a sua falta
então tenho que me esforçar para usufruir algum prazer. Hoje por exemplo, sinto
que as minhas viagens terminaram, o Cerro Fitz Roy era minha última reserva e
ela está cumprida e continuar sem saber se está indo ou voltando me parece
inviável. De qualquer maneira prevendo que esta seja minha última viagem para
cá retornarei pelo Paso Libertadores onde me despedirei do meu amor verdadeiro
quando se fala em montanhas que é a grande dama Aconcagua e depois irei até o
deserto do Atacama onde voltarei para Argentina pelo Paso de Jama.
Agora já vinte e uma horas e voltei da janta, tive
que ligar a calefação da casa porque o frio e o vento lá fora estão absurdos e
eu estou congelado.
10.01.2012
Está muito frio e o Fitz Roy dobrou seus
cobertores. Meu café da manhã fica a oito quadras daqui e a Marta que me
desculpe já que hoje ela iria fazer uma limpeza no motorhome, então sem foto e
apenas um até breve que me soou como falso. O camping custa R$12,00 p/dia com
ótima energia.
Comi as minhas panquecas e também me despedi da
Soledad que foi muito gentil neste breve período e enquanto abastecia (Diesel
tinha, gasolina não) troquei figurinhas de como era o inverno aqui e também já
tinha feito isto com a Soledad. Sintetizando: A maior parte da população vai
embora, ficam abertos dois hotéis, supermercado, posto de combustível e o
pessoal que mantém a cidade viva (suporte para energia, limpa neve, etc.), a
temperatura vai para 25° negativos. A estrada fica interditada a maior parte do
tempo e em intervalos é limpa para passar ônibus e outros todos usando
correntes nos pneus.
Acredito eu, que deve ser maravilhosa esta época
aqui em beleza, o próprio frio tão violento machuca menos porque é seco, as
vezes 10° positivo quando úmido é pior a sensação. Agora quando venta aí o frio
faz queimaduras e dói.
A cidade fica muito próxima do Fitz e da cadeia de
montanhas que o compõe, um pedaço extraordinário é chamado de Techado Negro,
uma montanha que justifica plenamente esta imagem de teclado e de cor, o
curioso é que no meio desde a parte de cima até embaixo forma uma bacia lotada
de neve acredito eterna já que em pleno janeiro ela estava transbordando e acho
que enchendo mais e explico abaixo.
Já na estrada depois de La Esperanza começaram a
cair umas gotas de chuva muito densas o que me fez pensar na primeira viagem
que a Iara e eu fizemos para os Andes para ver neve e o Aconcagua, começou
assim com gotas pesadas no vidro e não escorrem e depois para a nossa alegria
mais acima viraram uma nevasca! Na estrada eu via em vários lugares nuvens imensas
despejando o que de primeira impressão chuva, mas só depois de Rio Gallego eu
peguei uma e coisas da Patagônia - Era neve! Não da forma definitiva como a
conhecemos e sim como um gelo bem areado, não pude bater uma foto porque a
quantidade era muita e parar seria um perigo com os carros na pista. Entupiu meu
pára-brisa, minha lateral e meu prazer, mesmo que guiar nesta condição dá
arrepios. Isto explica a quantidade de neve que estava nos Andes. A temperatura
regula muito com a altura, o Fitz Roy tem 3.445 metros e aí qualquer umidade
vira gelo. Este mês não acredito que algum alpinista consiga em dezembro
passado alguns conseguiram.
No momento desta neve eu estava em um altiplano
tanto que quando baixei já em direção a San Julian choveu novamente e era água
liquida.
Dei uma entrada na cidade para repetir um momento
que a Iara eu vivemos quando visitamos a réplica da nau Vitória do Fernão de
Magalhães. Nesta época era inverno e inúmeras vezes em variados lugares as
pessoas diziam que nós devíamos ser os únicos turistas na região, assim foi na
península Valdez, em Puerto Deseado onde com um doido que cuidava de uma
fábrica de processamento de peixe nos acompanhou até um parque que havia uma
pinguineira e quando chegamos lá depois de um rali doido terminamos com o
motorhome desaparecido no meio de tanta lama grudada e o guarda parque
surpreendido conosco falou que naquela época ele nunca ia para a cidade por
causa da dificuldade da estrada e arf! tínhamos que voltar!
Naquela época estava estupidamente frio, mas dentro
de mim havia o calor da Iara, hoje tudo é somente frio.
Nós
entramos na caravela e lá estavam o Fernão de Magalhães e sua tripulação!
11.01.2012
Acordei com o cérebro aguçado e as memórias vinham
em borbotões enquanto eu ficava olhando o amanhecer em Puerto San Julian.
Lembrei-me daquilo que foi a pedra da roseta no meu relacionamento com a Iara.
Bem disse um conselheiro de casais em um tempo anterior a ela, a briga não sai
porque alguém esqueceu a pasta de dente aberta e sim por um assunto anterior mal
resolvido transferido a este detalhe.
Passei por Caleta Olivia novamente e continuo
achando a cidade deliciosa, mas, não vejo muitas condições de conviver com a
língua castelhana. Além disto, fui colocando outras situações como literatura,
conversação e outras situações de relacionamento e decidi por enquanto que não
posso viver sem o Domingo do Faustão!
Mesmo assim parei para tomar um café embora já
fosse próxima a hora do almoço. Não havia porque eles estavam fazendo limpeza.
Escolhi um mimo para levar para a minha querida Marta (A de São José e não a de
Chaltén) que é um chaveiro com o seu nome, mais de dez minutos para concluir
isto e ainda porque eu peguei o dinheiro e deixei em cima do balcão e saí. De
castigo soltei minha caixa de detritos e água servida na frente e saí para
esmagar qualquer muriçoca que entrasse na frente da minha casa.
No momento estou parado na concessionária Scania em
Comodoro Rivadavia, almocei duas latas de atum com batatas da Gomes de Sá com
acompanhamento de umas bolachas Club Social, uma delícia e recomendo!
E a concessionária? Horário de almoço! Abre as
14:30h.
Deu para sentir que eu estava com a pá virada e aí
aconteceu a mágica argentina. O atendimento foi ótimo na concessionária Feadar.
Gente que trabalha com amor e precisão. Rapidamente fizeram a revisão e isto
com muita interação e até um cheiro de romance com a Margarita embora tenha se
esquecido de perguntar se ela era solteira. Muitos visitaram o motorhome e tudo
isto pela primeira vez me fez ter orgulho de estar com a marca Scania. Na foto
abaixo já estou com a camiseta da concessionária, obrigado Héctor!
Da direita
para a esquerda Héctor, Alfredo, Hector, agachado Federico, eu e Walter.
Esta menção a Margarita é curiosa em um relato
dedicado a Iara e digo por quê: Ela foi à última pessoa que eu me despedi e
tinha um tipo físico muito semelhante à Iara e aí olhando a boca, ah a boca me
veio violento as dores da saudade.
Agora estou parado e escrevendo em Sarmiento em um
posto ACA no mesmo lugar em que há muitos anos atrás a Iara e eu ficamos
parados.
Encontrei aqui o Álvaro de Mogi das Cruzes que está
viajando com uma super moto Ténéré
da Yamaha. Ele iniciou a viagem em comboio, agora solo ele vai descer até o fim
do mundo. Trocamos figurinhas.
A pedreira da estrada do Chile me cobrou um preço,
meu sistema de escoamento de água se estilhaçou e ainda bem que depois da
válvula de contenção. Falando com o Alfredo da Feadar ele comentou que o mais
comum é arrebentar com o sistema que faz o balanceamento da suspensão. Ainda
bem que desisti e agora estou curioso para saber como o comboio vai se sair
nesta.
Um dos motorhomes do comboio é um ex meu em que eu
preparei a suspensão para o asfalto com enorme sucesso, a estabilidade dele é
extraordinária, só que numa estrada como esta é muito dura, como os outros dois
são carros pequenos assimilam muito melhor este tipo de piso. Agora uma coisa é
igual para todos, os sistemas da casa ficam expostos. Na viagem que eu fui para
o Ushuaia meu motorhome era uma Sprinter da Motor Trailer de Pirassununga e
toda parte hidráulica e elétrica fica dentro da casa protegida. Quem sabe eles
leiam este blog e coloquem os seus acontecidos nos comentários.
12.01.2012
Nesta latitude o anoitecer já é mais cedo assim
como o amanhecer começa a ter semelhança com o meu cotidiano, o frio também
amenizou um pouco.
Estou viajando a um tempo cortando a imensa
pradaria entre Sarmiento e Esquel, a minha esquerda grandes colinas com seus cumes
nevados e isto em janeiro.
Minha mente se povoa de pensamentos, diferente das
estradas brasileiras em que qualquer desatenção cobra um preço e o dirigir não
dão muito espaço, aqui é ao contrário, as retas se medem por centenas de
quilômetros e a divagação é a maior companheira. Azar neste espaço é que trouxe
a coleção quase completa do Chico e justamente agora nestes últimos CDs ouvidos
estou na pior parte dela. Talvez isto mude porque em breve estarei na estrada
El Bolson/Bariloche que é uma das mais lindas que conheço e vá que o Chico
entre no clima.
Penso que este relato que dedico a Iara justamente
por ela não será lido, seu jeito de ser, seu jeito de fazer e seu jeito de
esquecer me palpitam que nada referente a mim será procurado na internet. Esta
página terá visitas sim, surpreendentemente o registro acusa mais de catorze
mil delas e acredito deve ser de pessoas que digitam no Google palavras ligadas
a Patagônia, mas, eu escrevo para mim mesmo tanto para reler e viajar novamente
como também para alterar o meu dia não me deixando cair em marasmo, explico,
sabendo que irei por no papel não deixo nenhum pensamento ficar ao acaso ou uma
situação ser apenas o cotidiano.
Vou almoçar meu atum com batatas não porque não
tenha opção já que vejo um comedor aqui perto e sim porque é muito bom mesmo.
Está chegando perto do meu trajeto favorito e
decidi fazê-lo em grande estilo então virei à esquerda e fui para Esquel para
deixar minha casa completa em tudo inclusive com os vidros dianteiros limpos,
tomar banho e trocar de roupa. Surpreendente como sozinho estas necessidades
são diferentes. Ops isto pode espantar as quarenta virgens que me aguardam pós-morte
(Sim, eu professo a religião muçulmana para este caso) então eu aviso que as
partes pudendas sempre estão clean, chuveirinho no sanitário faz a mágica, no
resto é apenas sal da vida.
Antigamente eu parava em uma YPF que me
disponibilizava tudo isto, agora tem um posto Petrobrás logo na entrada então
aproveitei que não havia fila. Quem me atendeu foi o Pedro e aí vai a sua
história: Pedro nasceu no Chile e atualmente é radicado na Argentina. Pela
internet ele conheceu uma pessoa do Brasil que se denominava Loira. Um ano e
meio com troca de mensagens verdadeiras até ambos se encontrarem em Bariloche.
O nome dela é Ana Paula, mineira de Esmeralda uma cidade próxima a Belo
Horizonte. Hoje são casados e tem um filho chamado Pedro Gabriel e moram aqui
em Esquel. Engraçado foi que eu conversando com o Pedro comentei de como eu
entendia bem o que ele falava e daí eu percebi que ele estava falando em
português hehehe.
Direita
para esquerda - Marco, Vanessa (ler abaixo), Pedro Faundez o muito simpático
chileno e eu.
Estou começando a limpar o painel do ônibus e eis
que se aproxima um rapaz e me cumprimenta. Era o André, brasileiro de Cascavel
e outro apaixonado pela Argentina, ele estava viajando com o Marco e a Vanessa.
A conversa foi longa por este nosso amor em comum pelas estradas. Eles
basicamente fizeram o mesmo caminho que eu com a diferença que do Calafate eles
vieram por dentro (600 km de rípel) e obviamente se divertiram muito mais
embora o custo pedradas não os isente. Cascavel é obvio que conhecem o Pachenki
inclusive o Marco foi professor do Eduardo irmão do Diogo. Conversa deliciosa
regada a café e depois uma foto para recordação.
Esquerda
para a direita: Marco Sella, Vanessa Wiebbelling, André Chrun e eu.
No retorno irei passar em Cascavel para conversar
novamente com o Diogo e já é certo que iremos nos encontrar novamente. Eles não
sabem que eu leio o futuro e eu li e nele estava escrito que um motorhome irá
entrar na vida deles como a melhor coisa material acontecida assim como o foi
para mim.
Escrevendo vou enrolando o banho embora com o sol
batendo firme na casa o calor está muito propício para isto.
Mais uma enroladinha, eu comentei a quantidade de
motor homes da Europa que se encontram na região então vai abaixo uma foto de
um da Alemanha que está parado aqui no posto.
Bati esta
foto antes enquanto punha diesel na casa. Depois vi o casal e pensei em
fotografá-los juntos, mas daí...
Agora chega, vou tomar banho! Não vou limpar a casa,
pois isto aumentaria em muito a saudade da Iara que sempre teve prazer em fazer
isto.
Acabei limpando, uma vantagem da Patagônia é não
haver pó então...
Obviamente já aprendi alguns truques como, por
exemplo, os tapetes dos banheiros eu dobro eles então tenho quatro faces para
usar antes de lavar, toalha de banho e rosto só as uso depois que estou limpo
então duram muito tempo. Manchas no chão limpa vidros nelas mais uma vassourada
e uma aspirada e tudo continua meio sujo.
Uma foto a partir da cabeceira da minha cama já que
estou banhado e ainda é cedo para jantar. O Pedro convidou-me para jantar com
sua família, infelizmente as vinte e três horas então eu recusei, desayuno
então falou ele, nove horas da manhã, também não. Os horários da Argentina não
combinam com o meu ciclo de vida em compensação os baianos fariam festa aqui.
Meu quarto,
na seqüência dois banheiros, cozinha e sala de jantar, sala de visita e escritório.
Na frente meu cockpit. Do lado externo tem lavanderia, garagem para moto e
móveis para uma sala externa. A energia vem de um gerador Generac 5500 e a casa
dispõe também de calefação a gás e ar condicionado de teto. O chassi e motor
são Scania sendo que o último tem 9 litros 310 hps, câmbio semi-automático por
joystick e controle automático de velocidade. E a Iara não está comigo...
13.01.2012
Aleluia às sete da manhã havia café no posto e com
uma mistura deliciosa e fresca. Este lado da Argentina sempre me surpreende com
coisas boas como uma vez em Neuquén em que a Iara e eu estávamos com um
motorhome Iveco e no caminho quebrou o suporte do compressor de ar (adaptado).
Dormimos na frente da concessionária e fomos o primeiro a ser atendido.
Atenciosos puseram a disposição um mecânico (Luis) que trabalhou seis horas
diretas no problema já que para fazer uma nova base teve que sacar a frente
inteira do carro. Na hora de acertar a conta ZERO! e mais, deram uma dúzia de
camisetas da concessionária e acredito que a Iara até hoje as tenha, e mais,
mapas de toda a região juntamente com as previsões climáticas. Na época o
motorhome Iveco era uma novidade completa e eles ficaram felizes por um estar
lá, mais acima de tudo porque isto também faz parte do espírito argentino de
doação. Importante: Isto não é diferente no Brasil.
Sempre falo da maravilha que é a estrada de El
Bolsón a Bariloche ou ao contrário, aumentem um pouco e inclua Esquel no
caminho, então fica Bariloche/ El Bolsón/Esquel. Quando fizeram o asfalto até o
Calafate então...
Passando por El Bolsón um anúncio de quadriciclos
para alugar, imediatamente parei e já negociei uma saída às dez horas para um
trajeto de duração de três horas.
Diferentemente do resto da Patagônia aqui já há
muitas florestas e conseqüentemente a trilha faz um pó danado. Fomos a um
recanto muito bonito com um rio de pedras. O Daniel proprietário do Travesias
en Cuatriciclos foi de guia e o passeio gostoso e simples. Serviu para matar a
saudade do meu quadriciclo e embaixo as fotos do evento.
Da direita
para esquerda: Daniel Roquel (guia), no colo Santino Falcon, ao lado sua mãe
Gabriela Falcon, Virginia Choqui, Florencia Choqui e eu. E de onde elas são?
Caleta Olivia!
Esquerda
para a direita: Virginia, Gabriela, Florencia, Santino e eu e o meu quadriciclo
Can-Am amarelo.
Logo ontem que eu tinha deixado a limpeza em dia me
encontro agora de pó até nos redutos mais escondidos. Almocei na cidade um
bifão de chorizo de gemer e neste momento escrevo parado na praça principal e
sem animo da dar a partida para completar esta estrada fabulosa.
Peguei a estrada e ela continua linda embora o rio
que a margeasse tenha sido trocado por um lago gigantesco. Difícil de curtir a
paisagem pelo excesso de turistas, a estrada já é tortinha e com eles a
entupindo perde-se o prazer.
Depois de Bariloche peguei um trafego lento, na
primeira oportunidade abri e mandei ver passando uns trinta carros arf! dei de
cara com um controle policial e stop Leopold. Aí foi curioso porque os
motoristas das muriçocas todos passaram acenando para mim e falando da minha
mãe querida. Bom o guarda pediu os documentos e perguntou-me o porquê da
revolta dos outros, fiz que não entendesse nada e ele apenas pediu que eu fosse
mais despacio. Agradeci e sai atrás dos caboclos que se lembraram da minha mãe.
Quando eu comecei a engoli-los (meu alvo maior era uma S-10) alcancei um Bora
que estava brincando de morto na estrada, foi eu começar a ultrapassá-lo e ele
decidiu acelerar, nojento e maldoso, mas na estrada falar em maldade eu sabe
ser o pior deles e lá cravei 110 bastando eu por meio ônibus na frente que iria
fechá-lo legal e sem opção, i can’t believe! outro
controle policial! Sorte que o bando estava olhando para o outro lado enquanto
eu trepava no freio. O Bora entrou para esquerda. Ainda calmo e lúcido e já com
o trafego bem mais reduzido e espalhado e o piloto automático em 90 fui passar
um Ford Ka que alternava a velocidade entre 60 e 80. Mas não é que o idiota que
dirigia fez a mesma coisa de acelerar. Na primeira voltei a minha mão e ele
diminuiu a velocidade novamente, na segunda fui para bater com as dez e não deu
outra ele acelerou e eu cravei ocupando um pedaço da faixa dele e pelo espelho
vi o retrovisor a centímetros da minha lateral e tentei deixar a dois
milímetros, mas ele freou e foi para o acostamento e só vi poeira. Meu corpo
está sujo de pó de El Bolsón, mas a alma está lavada hehehe.
Parei para dormir em Piedra de Áquila e eis que
chega um ônibus do Brasil com os motoristas Marco e Júlio e todos os
passageiros da Bahia indo para Bariloche e depois Chile. Baita logística uma
viagem desta, eles já estavam a treze dias na estrada.
Agora banho e cama e a Iara ainda na minha cabeça.
De todas as
maneiras
Que há de
amar
Nós já nos
amamos
Com todas
as palavras feitas pra sangrar
Já nos
cortamos
E agora que
chegou a hora do amor mandar
Eu fico
sozinho a te esperar
14.01.2012
Se aproximando de Neuquén e parado antes em um
lugar chamado El Chocón parque paleontológico,
nada como tomar um café olhando dinossauros.
Meu GPS Garmin
indicou-me como caminho ao Aconcagua entrar na cidade de Neuquén, ele pensa em
mim como carro pequeno e até aí não haveria problemas se na estrada não
houvesse um artifício para proibir passagem de ônibus ou caminhão (Vista
Alegre). Aí começou um episódio difícil e também confirma algo estranho que
ocorre na Argentina. Há uns anos atrás a Iara e eu nos perdemos em Córdoba e
quando pedíamos informação de como ir a San Luis encontrávamos muita
dificuldade tanto que no final estávamos do outro lado da cidade. Daí eu mudei
a pedida para Rio Cuarto e um guarda acabou nos comboiando até a estrada. Em
Neuquén a pedida era Mendonza e motorista de táxi, frentista e outros todos
desconheciam o caminho. Acabei achando uma solução precária em uma oficina de
turismo onde depois de um bom atendimento e uma explicação de tudo que a cidade
oferecia de passeios, compras, adegas, etc. acabou dando uma pista de como eu
devia fazer para sair. Mesmo assim ainda havia dúvidas e tudo que eu colocava
no GPS indicava para eu voltar pelo mesmo caminho e aí conheci a Luciana.
Esperando um ônibus debaixo de um sol absurdo (o calor aqui está inenarrável)
ela me informou que o caminho era aquele e se eu podia dar uma carona.
15.01.2012
Que tarde que
transformou o dia de ontem em algo muito especial. Agora são seis horas da
manhã e estou parado na frente da casa dela esperando-a acordar para me
despedir. O calor continua muito forte e o ar condicionado luta para amenizá-lo.
Voltei para a cama e dormi até as dez, depois ela veio com uma garrafa de café
e meio pão bengala que reservei para comer depois.
Querida Luciana você tinha razão, o pão era ótimo,
o almocei com salada de atum e azeite de oliva.
Querida amiga foi maravilhoso te conhecer e suas
lágrimas na despedida me dizem que foi mútuo!
Estou escrevendo na cidade de Alvear e amanhã já
estarei na cordilheira, penso em achar um camping em Uspallata para completar
minha água e dar um trato na casa.
16.01.2012
Arf tem dia que não acordar seria ótimo, então
tomei meu desjejum e andei mais, não estava engraçado então parei novamente no
meio de umas arvores fora da estrada e fui dormir novamente para cumpri minha
cota de pesadelos. Acordei e tomei um banho para ver se as coisas voltam ao
normal e voltaram logo em seguida um posto YPF para a minha dose de café
rejuvenescedora e com uma meia lua para acompanhar. Estas meias luas eu acho
que são o nosso croissant embora não consiga me lembrar como é um, mas, são deliciosas
e muito tradicionais em toda a Argentina.
Segui viagem, a estrada por aqui é ladeada de ambos
os lados por árvores, a região (San Rafael) é bastante habitada e grande
produtora de frutas e vinhos. Passando um parque um anúncio de um camping
chamou minha atenção pela grande entrada e eis eu parado dentro dele com água e
mangueira do meu lado, eletricidade a minha frente e no estacionamento cabem
motor homes de qualquer tamanho. O nome do camping é El Parador e fica no GPS
(Plagiando o Renato e a Graça que sempre colocam as coordenadas de lugares
importantes) S 34° 38.772' W068° 22.249'. Nisto de olhar a posição vi que o meu
Garmin faz mais coisas, exemplo, posso a partir da onde estou ver onde tem a
polícia mais perto, combustível e outros. Em um filme o artista Danny Glover diz Deus é um laboratório
farmacêutico, Mencken diz que o termostato é a maior invenção humana e eu
concordo com eles e incluo na santíssima trindade o GPS que aqui na Argentina
ele está espetacularmente preciso! Meu palpite é que se houvesse a menor
possibilidade da existência de Deus ele seria de nacionalidade americana!
Agora a luta porque minha casa está uma zona e se a
Iara estivesse comigo iria se divertir a grande e eu também cheirando o seu
corpo, beijando, lambendo o sal e depois como éramos de costume levando a basura
para fora.
No sol sem
problemas, energia elétrica poderosa garante o funcionamento do ar. E se
estiver quente o camping oferece uma boa piscina.
E aqui estou eu arrumando uma coisinha e voltando
ao computador, toda a minha roupa já está entregue a Gladys para lavar e passar.
Há pouco estava jogando um Plantas &
Zumbis, as poucas crianças que passaram ao lado devem ter se contorcido ao
verem o tamanho do vídeo game e quando eu o instalei pensei muito na Iara e até
pus cinto de segurança caso ela quisesse jogar enquanto eu rodava.
Hoje eu
tenho apenas uma
pedra no
meu peito
Exijo
respeito, não sou mais um sonhador
Chego a
mudar de calçada
Quando
aparece uma flor
E dou
risada do grande amor
Mentira
Limpeza quase no fim. Almocei pela primeira vez uma
dobradinha, tinha relutado até então porque ela precisa de uma panela para
esquentar e na minha vida simples eu só compro enlatado que tenha a tampa que
se destaca sem precisar de abridor, por isto minha dieta é salsicha, atum com
salada de batatas e dobradinha que foram os únicos que encontrei com esta
tampa. Sim também abro pacotes de bolacha e um voto de louvor ao Club Social
que tem um sabor sensacional. Esqueci de uns patês de fígado que comprei aqui
na Argentina com latinha abre-se fácil também. A dobradinha estava deliciosa e
aleluia que comprei a farinha e a pimenta certa para combinarem.
Devaneios: Em Neuquén na confusão da procura do
caminho acabei parando em um camping para dar um descanso (não entrava ônibus),
na recepção uma foto do Che Guevara o idiota menor de um bando de facínoras que
levaram seus povos a uma miséria absurda e que agora parecem ressuscitarem nos
Lulas da vida. Um exemplo pouco mencionado e que serve de ótima comparação foi
a Alemanha dividida, o primeiro confronto direto entre a liberdade individual e
o estado protetor. No começo a parte comunista da Alemanha foi impressionante
com grandes desfiles e muita festa que logo terminaram porque sem comida e sem
trabalho renumerado pela capacidade não há prosperidade e logo começou a
imigração em massa para a Alemanha ocidental violentamente reprimida pelos
guardiões do éden e aí vejam só quando eu completava oito anos de idade
exatamente em 13 de agosto de 1961ergueram um muro para que os moradores do
paraíso não pudessem escapar de lá. Assim foi a União Soviética com milhões de
mortes, assim é com Cuba e assim desejam os nossos lideres tanto no Brasil como
na Argentina e uma boa parte da América do Sul.
Nós já somos uma sociedade em que os nossos jovens têm
como meta de vida passar em um concurso público e pergunto: Qual o futuro desta
sociedade? As sanguessugas sobrevivem porque ainda há muitos com sangue para
doar agora quando elas forem à maioria o sangue irá acabar.
17.01.2012
Que inferno de noites mal dormidas então eu acordo
de manhã faço um desjejum e volto para cama para novamente completar minha cota
de pesadelos, não sei como mudar isto.
Mais tarde fui procurar um café preto que a bela
Gladys proprietária do camping me providenciou. Com a conversa rolando solta
eis que chega o pessoal da televisão fazendo uma matéria sobre turismo, acabaram
filmando minha casa e me fazendo uma entrevista que irá ao ar hoje à noite.
Da direita
para a esquerda: Gladys, Gustavo o entrevistador, eu e infelizmente não
registrei o nome do operador da câmara.
Esta situação deu um grande salto na interação com
outras pessoas do camping e aí vai a foto do grupo que visitou minha casa.
Da direita
para a esquerda: Maria Julia, Rosa (Mãe da Gladys), Franco, eu, Mônica esposa
do Rubén Persichitti, Gladys Argentina e sua neta Jazmin.
Agora estou em casa esperando o Julio filho da
Gladys que irá levar-me de carro para fazer um tour em San Rafael. À noite
deveremos assistir todos juntos a reportagem da televisão.
Já são duas horas e o Júlio não veio ou se veio eu
não desci da casa e ainda nem almocei tudo porque abrindo os arquivos (raros
porque em uma época eu perdi quase todos eles por falta de backup) encontro uma
correspondência que enviei a minha irmã em 17.08.1998 avisando entre outras que
tinha comprado o meu primeiro motorhome. Que pena que eu não tenha sido
correspondido nas cartas que enviei, hoje seriam um excelente arquivo da nossa
memória. O que então me mexeu muito foi que nela inclui uma foto da Iara e eu
feita no momento em que eu digitava como se vê na tela do computador:
Hoje de
manhã tocando no rádio da recepção do camping a música Como vai você em
castelhano. Te amo, te amo...
Fora isto mais uns tantos arquivos, cópias de
discursos, poucos perante a quantidade de coisas feitas e escritas que se
perderam. Um sobrevivente curioso foi uma defesa que fiz a Ferrari e Jean Todt
por ocasião do GP da Áustria em que o Rubens Barrichello recebeu ordens de dar
passagem ao Michael Schumacher.
Explicado porque Julio não apareceu, carro na
oficina. Aproveitei e completei as águas da casa e mais tarde meu novo amigo
argentino Rubén me levou para conhecer a cidade. Ia perder a televisão, mas não
iria perder a oportunidade do passeio. No fim ambas as coisas deram certo, ou
seja, no centro de San Rafael eu vi uma televisão ligada e pedimos para
assistir o noticiário e eis que minha casa e eu fomos notícia por uns três ou
quatro minutos e espero que minhas palavras tenham sido entendidas pelos
argentinos como uma prova de afeto e gosto por sua terra.
Esta história de televisão é interessante outra vez
foi no Chile, estávamos a Iara e eu estacionados no deserto como era comum na
época quando fomos filmados em uma reportagem sobre as flores do Atacama e o
turismo. Até aí nada demais e talvez nunca viéssemos a tomar conhecimento se
não assistíssemos a ela em nossa televisão por coincidência. Bom, não muita
coincidência porque na época a televisão chilena tinha uns programas tão
diferentes que a assistíamos com freqüência.
Aproveitei também para comprar uma lembrança para a
Iara e mais uma pedra local colhida em um rio próximo ao camping. Ela eu
acredito nunca saberá deste relato. As lembranças físicas serão entregues
através da Joana, quem sabe ela me ligue agradecendo, quem sabe me ligue
dizendo que também me ama, quem sabe Bhagavad Gītā me
indique o caminho da paz, quem sabe...
Com o Rubén e seu filho Franco nós fomos além do
passeio fazer um tira gosto com presunto que eu conheço como Pata Negra e
vinho. Acabou virando janta com um complemento de uma hamburguesa completa.
Tudo ótimo e o vinho fantástico, com ele fazendo efeito nos meus olhos seria
ótimo ganhar de brinde uma boa noite de sono!
18.01.2012
Boa noite de sono? Nada de boa noite e ontem
assisti a dois filmes até capotar.
Minha roupa já está toda lavada e passada, guardá-la
é outro negócio e vou fazê-lo hoje. A casa se desarruma com muita facilidade então...
Já estou no Parque Aconcagua! Como eu amo esta
parte dos Andes! Muitas coisas já aconteceram neste breve período, mas, o que
está marcando é que não paro de chorar.
Cheguei e o cume estava descoberto, obrigado minha
montanha! obrigado Tiaraju por ter me trazido para conhecer esta dama! obrigado
Iara por ter tantas vezes dividido as noites de um bilhão de estrelas, os
tantos nascer do sol quando somente o cume se ilumina tão antes, por ter
participado de tantas aventuras, lembra-se o túnel de gelo? aquela tempestade
de neve que fez sumir o motorhome debaixo dela? aquela vez que saímos da
estrada principal e pegamos a antiga e depois tivemos que voltar de marcha a ré
a um palmo do desfiladeiro? Hoje quando passei por lá o resto já tinha caído e
só um pedaço dela e o túnel permanecem. Hoje minhas lágrimas não param de cair
porque esta montanha foi e é umas das grandes impressões da minha vida, e ela
também me faz relembrar você com intensidade e sinto também que hoje e amanhã será
a última vez que aqui estarei.
Ela ficou
nua como antevendo que na minha agonia eu não poderia esperar para vê-la!
As coisas mudaram muito aqui, aumentaram o volume
de sistemas para deixar a estrada livre no inverno e para entrar no parque
tem-se que pagar ingresso. Somente os Andes continuam esmagadoramente gigantes!
Quando cheguei o parque estava fechado (Cerra as dezoito
e eram dezenove), porém havia uma brecha contornando o primeiro pátio de
estacionamento e entrei ao lado dos portões fechados. Eu já há tinha visto da
estrada a descoberto e neste momento não conseguiria imaginar alguma coisa
impedindo de eu me aproximar.
Chegar ao estacionamento principal eu chegou,
depois já é outra história, um casal de guarda parques veio aonde eu estacionei
e: como entrei? não pode ficar! Não saio disse eu então eles me convidaram a ir
falar com o chefe que se chama Rubén. Suerte! Um homem que entende o amor pela
montanha, apenas pediu então que pela manhã eu descesse e pagasse a entrada
coisa que sem dúvida iria fazer de qualquer maneira.
Por hoje encerro, as emoções me esgotam e anoitece
nas franjas do Aconcagua, somente ela será a última a apagar.
Anoitecer
na janela da minha casa.
19.01.2012
Três horas da manhã e estou acordado vendo as
estrelas, frio. Tomo meu chocolate com bolachas e iria aguardar o amanhecer,
silencio absoluto e nenhuma luz artificial quando apago as minhas. Adormeci e
acordei dia claro.
Dei uma volta a pé e o pessoal do parque já está
preparando os fardos com alimentação para o helicóptero levar para os diversos
acampamentos que fazem a rota de escalada. Desci a entrada do parque para
acertar o ticket de entrada, como não levei documentos voltarei depois.
Indo para a
entrada do parque eu bati esta foto para tentar nela dar uma dimensão de
grandeza, minha casa está quase no centro da foto. Impossível, só ao vivo
sente-se isto.
O peito também se emociona, a volta da entrada do
parque ao estacionamento é arf, arf, arf...
Enquanto escrevia aqui o helicóptero voltou
trazendo o lixo das praças e o depositou próximo, pela quantidade muita gente
acima e com este dia maravilhoso talvez alguns tenham sucesso em atingir o
cume.
A todos que tentam, a todos que conseguem e a todos
que amam esta montanha minha homenagem na foto do primeiro que a conquistou.
Matthias
Zurbriggen
São 21:35h e estou no Chile a uns 300 quilômetros
de La Serena e uns mil e trezentos de Antofagasta, já jantei muito bem em um
posto Copec inclusive com uma ótima e grande salada que por algum motivo meu
corpo a tem desejado.
Saí do Parque Aconcagua, antes parei novamente na portaria
para acertar o pagamento da entrada, foram atenciosos embora tivesse que
enfrentar uma fila para chegar minha vez. Rumei para a fronteira e dei uma
parada em Las Cuevas para tomar um café. Em San Rafael o Rubén tinha me
comentado sobre uma estrada de terra que leva a uma estátua do Cristo e onde
tomei café tentei convencer o dono a me levar, ele falou que teria muito gosto,
porém já se aproximava a hora do almoço e ele tinha que ficar já que segundo
ele levava mais de hora para ir e para voltar e me apontou justamente a entrada
da estrada em que há um arco com informações embaixo e lá falou que eu
arrumaria um carro. Deixei minha casa lá e fui andar aqui nunca é de graça ou
sobe-se muito ou desce-se muito. Na estrada já de ripel passou um casal de
argentinos em um Renault Sandero e diminuiu a velocidade, ou para ver aquele
estranho ser cuja língua estava raspando o chão ou por entender que eu adoraria
uma carona e assim o foi. Sobe-se, sobe-se e sobe-se.
A ponta lá
atrás da grande montanha é o cume do Aconcagua, foto tirada de dentro do carro
a meio caminho do Cristo Redentor.
Anos vindo para cá e nunca me interessei, o que eu
estava perdendo! E mais, na base do Cristo tem a saída para um cume (+ 150
metros de escalada) que pode me dar um orgulho de conquista. Hoje não porque
além do vento gelado minha cabeça está doendo muito pelo efeito altitude.
Nada como um chocolate quente com uma aguardente
típico misturado e aí encontrei um casal brasileiro do Rio de Janeiro:
Da direita
para a esquerda: Leila Santos, Ivan Menezes, o chileno que estava pondo uma
aguardente chamada pirke no meu chocolate e chama-se Billy Johns e eu.
O Aconcagua agitando um lenço de nuvens na
despedida:
Foto by
Nicolas Vera
Mais um chocolate quente com pirke e aí o Billy
dobrou a dose, vai custar caro isto aí! E uma foto de lembrança desta simpática
família da cidade de La Plata.
Eles me deixaram em Las Cuevas onde almocei um purê
de batatas com carne ensopada, comi pouco porque a cabeça carregava a banda da
academia de West Point tocando a todo vapor. A solução é descer então...
Um tempão na fronteira que fica a três mil metros
de altura, fila errada e depois mais filas.
Terceira
fila e haveria mais duas. As aduanas Argentina e Chile agora ficam no mesmo
local.
Tudo terminou com boa atenção embora demorada,
desci os Caracoles e lá embaixo já fiquei bom da dor embora o martírio fosse
começar.
Estão construindo uma praça de pedágio e dei uma
gemidinha porque não tinha pegado os pesos chilenos, ops, ainda não estão
cobrando, eu vejo a passagem toda marcada de batidas (recém construída) e me
arrepia, fico a uma distância do caminhão a minha frente e lentamente pimba!
meu rodoar engata na parede e é arrancado. Parei imediatamente com o prejuízo
assegurado. O pessoal que estava construindo veio me ajudar na manobra que foi
incrivelmente difícil fazendo a fila de ambos os lados ficarem enormes, depois
estacionado do lado para desmontar os pedaços o comentário que o engenheiro
daquela obra era um bêbado por fazer a passagem tão estreita e que quando
estivesse funcionando haveria uma passagem lateral.
Continuei já olhando para os caminhões e ônibus
procurando ver se eles estavam usando este sistema de controlar a pressão nos
pneus e nada, ninguém e vi um mercado gigantesco aberto aqui no Chile para uma
indústria que faça isto. Eu olhava porque se eles tivessem significaria que eu
encontraria quem vendesse as peças.
Já na Rota 5 pedágio again, estreitíssimo e no
primeiro passei sem encostar embora que a distância que me separasse fosse minúscula. No segundo sem jeito, no
instante que o rodoar tocou a parede eu parei sem nenhum dano. Uma bagunça
porque ninguém vinha auxiliar, depois veio uma mulher e não tinha a menor idéia
do que fazer então eu desci do ônibus e vi que não passava mesmo naquela última
parede, então eu subia dava uma ré e entortava o ônibus pondo a traseira na
calçada, voltava, media, ia, descia do ônibus para olhar, ré, frente, descia...
Está aí a explicação porque ninguém usa rodoar,
aquele mínimo a mais para fora da roda inviabiliza os pedágios. No terceiro já
usei a via alternativa e ainda tinha que passar o túnel quilométrico, mardita
cachaça, logo eu que não bebo fui inventar.
Tudo bem e de agora em diante só muita rota até San
Pedro e eis que numa passagem para sexta marcha neca do câmbio funcionar. Parei
no acostamento peguei a caixa de ferramentas para tirar uma placa que dá acesso
a um sistema de emergência para esta situação que deve ser comum em uma Scania
já que eles tiveram o trabalho de deixar esta opção. O ônibus fica apenas com a
segunda, quarta e quinta marcha disponível. No primeiro SOS que encontrei parei
e fiquei com a impressão que ele não funcionou, só havia uma voz repetitiva: um
momento, por favor...
Esperei passar um caminhão Scania e pedi socorro,
bonito de ver o caboclo freando já que aqui a velocidade permitida é 120.
Expliquei para ele o ocorrido e pedi o favor de ligar para o 0800 da Scania, um
parto ou um disque piada, um tempão ele falando, depois eu, uma hora pedindo
que eu fizesse um depósito para eles enviarem socorro, outra para eles darem um
endereço da concessionária mais próxima e nada, nós desistimos e me propus a me
arrastar a uma cidade mais próxima para tentar outro tipo de ajuda. Tchau ao
amigo tão prestimoso!
Voltei ao ônibus e recomecei as tentativas,
restart, liga, desliga, chacoalha e quando olho uma camionete Toyota parada a
minha frente com uma pessoa perguntando se precisava de ajuda. Um casal
simpaticíssimo Miguel Angel Cardoza e sua esposa Clara, ambos camioneiros
(Volvo) e estavam indo em férias para uma praia adiante. Como ele trabalhou
muito tempo no Brasil tinha um português bastante fluente e lá fomos novamente
para o 0800 Disque piada Scania e eita piada sem fim, nós conseguimos um número
de telefone de uma concessionária e aí a resposta, eles só poderiam vir se o
0800 autorizassem. Desistimos. O Miguel ligou para um mecânico amigo e enquanto
isto chegou o socorro da rota. A decisão ficou que eu retornaria a Santiago (+-
170 km) a cinqüenta quilômetros por hora. Nisto voltamos a mexer e a raciocinar
de como o meu câmbio funcionava, quando eu mencionei que devia ser impulsos
elétricos o Miguel pediu para eu desligar a geral do ônibus, eu já tinha feito
isto e repeti e nada e aí GRANDE MIGUEL! perguntou se a posição do botão de
emergência estava correto e não estava! Funcionou.
Querido amigo Miguel e Clara, se vocês estão lendo
aqui é porque já liguei para vocês do Brasil, então renovo os meus
agradecimentos e gente como vocês é o grande valor da raça humana que dão de si
sem pensar em si!
20.01.2012
Uma parte deste relato acima foi escrita de hoje de
manhã, ontem escrevendo capotei no cansaço. Agora irei tomar meu café da manhã
que já vi na fotografia, ovos mexidos com torradas e outras coisas.
Parado em Copiapó, cidade que foi a porta de
entrada do Rali Dacar no Chile. A Iara e eu tivemos a mesma opinião a última
vez que estivemos neste país, quando eu já estiver na Argentina falarei das
minhas sensações. Aqui já é o deserto do Atacama. Mais dois ou três dias para
cruzar os Andes novamente.
Uma parte do tempo hoje eu viajei pela costa, onde
eu dormi já era frente para o mar. A orla do Pacifico é maravilhosa,
infelizmente o céu estava nublado e neblina baixa que ensopava o pára-brisa.
Eu completei meu tanque de água em La Serena numa
mangueira que usam para regar os gramados, já tínhamos feito isto em Iquique e
é o mais prático que tem.
Agora estou escrevendo porque pouco antes de parar
tomei um Red Bull, minha intenção era continuar e eis que em seguida aparece um
posto Copec, o último dos próximos 1.000 km eu acho (A quilometragem porque o
posto eu tenho certeza pelo mapa deles). Este maldito dá asas mesmo.
Gostaria de saber como está o comboio? Eu digo que
não aprendi sobre isto agora viajar nas férias é a coisa mais imbecil, eu sabia
por pressentimento tanto que nunca viajei nesta época em época nenhuma, a
realidade é muito pior, mas muito mais mesmo.
Hoje Iara a saudade que sinto de você é mais porque
você passaria um balsamo nas minhas pernas cujos músculos estão ressentidos das
caminhadas.
Faz tempo que não usufruo nenhum prazer nas
viagens, forço e faço de conta, então já há alguns dias tomei a decisão de
vendê-lo quando chegar ao Brasil.
E isto sem saber qual o meu próximo passo.
Preciso não
dormir
Até se
consumar
O tempo
Da gente
Preciso
conduzir
Um tempo de
te amar
Te amando
devagar
E
urgentemente
Pretendo
descobrir
No último
momento
Um tempo
que refaz o que desfez
Que recolhe
todo o sentimento
E bota no
corpo uma outra vez
Prometo te
querer
Até o amor
cair
Doente
Doente
Prefiro
então partir
A tempo de
poder
A gente se
desvencilhar da gente
Depois de
te perder
Te
encontro, com certeza
Talvez num
tempo da delicadeza
Onde não
diremos nada
Nada
aconteceu
Apenas
seguirei, como encantado
Ao lado teu
21.01.2012
Estou em San Pedro de Atacama, que dia maravilhoso!
Eu que estava por baixo em relação ao Chile mesmo
sem conseguir um exato porque hoje aconteceu uma grande diferença.
Talvez eu tiver dormido bem tenha ajudado. Acordei
bem cedo e na estrada rodando aguardei o nascer do sol. Depois de ele estar
brilhando a toda no deserto é que me aconteceu o deslumbramento: Eu estava
atravessando o Atacama, um deserto único no seu tamanho e na secura, aqui nada
de coisa viva se choca com o seu pára-brisa porque não existe nada vivo que se
possa perceber. O cenário é surrealista e a imersão durou horas embora o dia
tenha passado em minutos!
Parei meio contra a vontade porque estava em
êxtase, e outra porque fotografia é uma coisa tão pequena perto da imensidão
que eu estava vivendo. O que aparece na foto se repete com nuances por centenas
e centenas de quilômetros.
Deserto do
Atacama - Rota 5 Chile
Cheguei a Calama ao entardecer e decidi ver o pôr
do sol na estrada para San Pedro e não foi a melhor decisão. Poucos quilômetros
rodados e a estrada interditada por um acidente de uma camionete cabine dupla,
como não vi outro carro imagino que ele tenha perdido o controle ou por sono ou
por uma falha mecânica. Foi grave o acidente a camionete assim mostrava, mas
foi muito mais grave os seus ocupantes estarem sem cinto de segurança e seus
corpos já cobertos estavam separados por distâncias que iam próximo a cinqüenta
metros, eram quatro adultos pelo tamanho talvez uma ou duas crianças já que a
lona que os cobria era pequena ou talvez fossem partes desmembradas.
Este foi o segundo acidente que vi nesta viagem, o
outro foi na rota 3 na Argentina e três pessoas morreram e também pelo mesmo
motivo, porque em todos eles o cockpit estava com poucos danos mostrando que as
células de proteção destas fábricas são de ótima qualidade.
Não foi o acidente que me baixou a bola e sim o
absurdo de movimento na estrada de San Pedro, então o pôr do sol primeiro que
não é uma das minhas coisas preferidas e segunda porque anoiteceu e eu sei a
paisagem que perdi.
Queria abastecer, mas se mexer aqui na cidade está
muito difícil pelo excesso de turistas então estou parado no estacionamento municipal
e amanhã depois de encher o tanque Paso de Jama. Meu GPS indica 2.445 metros de
altitude, amanhã em uma reta de quarenta e dois quilômetros irei subir para
4.600 metros medida esta que conferirei lá em cima.
Ah, se já
perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como ei de partir
Se ao te conhecer, dei para sonhar, fiz
tantos desvarios
Rompi com o mundo
queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós, nas travessuras
das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como ei de partir
Se ao te conhecer, dei para sonhar, fiz
tantos desvarios
Rompi com o mundo
queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós, nas travessuras
das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Curiosidades esparsas: Ainda no comboio o Rogério
Marcolino comentou enquanto conversamos sobre quem iria à frente - Se for
estrada de pó eu vou à frente, se for de barro eu vou atrás e se tiver porteira
eu vou ao meio.
Na divisa da Patagônia tudo que é fruta ou carne
tem que ser dispensada, o Carlos Martins na minha frente com as casas paradas
para fiscalização decidiu comer todas as frutas que ainda tinham e eu pensei se
eles barrassem o cigarro como seria eu fumando os cinqüenta pacotes que tinha
no estoque.
22.01.2012
Tudo programado para ser um dia ótimo, mas quem
conhece San Pedro sabe que duas bicicletas não passam ao mesmo tempo por
aquelas ruas então não consegui chegar ao posto e isto significou que tive que
fazer trocentas manobras em cada esquina. Aqui se faz e aqui se paga está
funcionando comigo, queria tudo depois de um dia maravilhoso quis também que a
noite fosse assim. Devia ter parado em Calama para abastecer. Conclusão eu tive
que voltar até Calama jogando horas preciosas que me teriam evitado o próximo
aborrecimento. E pior o posto em Calama fica no centro da cidade que não é
assim uma coisa grande, só que significa ruas estreitas e as próprias
concessionárias de caminhões estão enfiadas lá dentro. Mas tinha café aleluia!
Outra coisa boa é que fiz o trajeto de dia e ele é fabuloso porque até se
treina para o Jama. Para San Pedro desce-se porque vida possível nestas alturas
é sempre no vale como disse o alpinista e escritor Rodrigo Raineri e são
dezesseis quilômetros com a mesma inclinação de Jama (lá são 42), sobe-se em
quinta e desce-se trepado no freio.
Voltei a San Pedro e vamos ao Jama. Arf, o horário
que eu perdi me fez chegar junto com 8.932 turistas na aduana chilena. O
resultado e porque não fazer isto comento depois.
E vamos ao Jama! Pau na subida doida, quinta
marcha, 50 quilômetros por hora sem escolha. Caminhão carregado parou ficou
somente com outro descarregado engatado saí do lugar, eu vi. Alguns carros com
motores fervendo, maior volume de cacos de caminhão ou metais retorcidos por
incêndio.
Chega-se a 4.830 metros de altura pelo GPS.
Quando estive aqui com a Iara minha imagem desta
subida ou descida era uma reta e hoje não era, ou eles mudaram ou meu
raciocínio estava embotado. De qualquer maneira uma coisa não tinha antes que
são rampas de emergência e são muitas então pode ser que eles tenham mudado
alguma coisa. De qualquer maneira são curvas longas que fica a coisa meio reta.
Jama é uma loucura de bom, nomeio oficialmente
pelas estradas que já percorri a mais difícil de todas! E a mais fantástica de
todas! Não confundir com uma estrada linda como a de El Bolsón que se faz a
passo de valsa, no Jama as coisas são monstruosas e sem ver com seus próprios
olhos palavras não irão representar muita coisa e menos ainda fotos. O
componente que endurece fortemente este trajeto é ar, outras são as subidas e
descidas que são feitas a velocidade de elevador como mostra o GPS que fica
rolando os metros como velocímetro.
Tinha pensado em parar na aduana argentina, tomar
banho e talvez ficar para curtir o amanhecer, mas a falta de ar da altitude me
deixou assustado com a possibilidade de não passar bem.
Falando em aduana argentina baita tratamento eles
deram, nem desci da casa e quando estava na fila os carros se movimentaram um
pouco e eu não ia mexer o ônibus por causa de três metros e eis que chega um
casal argentino e entra na minha frente e desceram do carro. A mulher com
certeza estava com o mal das alturas e o cara era um destes lixos que a
humanidade produz em quantidade acima do razoável. Como eu estava com medo
deste problema de altitude e já com uma leve dor de cabeça não miei, mas, eis
que surge o herói argentino fiscal da fronteira fazendo-os voltarem para o
carro para irem para o fim da fila. Como alguns carros eles estavam desmontando
tudo quem sabe não sobrasse para aquele casal também. Como comentei na minha
vez entreguei os documentos pela janela, ele apenas me pediu um tempinho e
cinco minutos depois voilá!
Agora tem um posto YPF logo após e aí eu almocei, eram
duas e trinta da tarde.
Tomei duas aspirinas e pensei em dormir em Tilcara,
então fui curtir o resto do Jama. O resto são mais 400 quilômetros de total
delírio tanto que estou escrevendo perto de Salta próximo a meia noite tanta
foi a excitação.
Jama é um vale também só que a quatro mil metros de
altura cercado pela cordilheira dos Andes (os 400 que referi acima são no
vale). Pelo GPS a altura média é mais, diria 4.200 metros, pode parecer pouco e
não é o nosso ouvido tampa em cada cinqüenta a cem metros que se sobe. Peguei-me
com freqüência olhando a altura no GPS.
A descida do Jama em direção ao Jujuy deixa os
Caracoles como um jardim de infância, algo próximo para descrever, pegue a
estrada da Graciosa e multiplique por dez. Hoje foi mais ainda porque as nuvens
estavam no caminho!
Conselhos: Hoje cometi uma série deles e todos têm
seu preço. Primeiro se não estiver tudo perfeito não faça, é a aventura da vida
rodoviária e o corpo tem que estar pedindo ela. Com todo este stress matinal eu
iniciei a subida ainda tenso e rapidamente chega-se em uma altura que o
oxigênio é cinqüenta por cento menos que o nível do mar. A Iara e eu na primeira
vez passamos sem nenhum problema, hoje até nos movimentos simples a coisa
pegava e não estava assim quando acordei.
Segundo, novamente a tesão me fez mudar o plano,
Tilcara estava a esquerda a um pulinho, ótimo posto com excelente restaurante,
mas quando cheguei em baixo (2.400 metros de altura) a estrada que fica entre
duas cadeias de montanhas para o lado de Jujuy fez-se um arco nas nuvens e no
fundo o céu estava um azul da bandeira argentina e daí pensei, por lá eu arrumo
outro posto. Hoje é domingo e só consegui para depois das dez da noite porque
não tinha um posto no caminho.
Perto do posto meu câmbio travou novamente em
sétima, pois é Miguel você está coberto de razão quando comentou que a culpa
era la mano, entendi porque trava e a culpa é minha mesmo ou com a complacência
do Miguel a mão. Consegui entrar no posto e rapidamente ajeitei para emergência
e depois sabia o que fazer para tudo voltar ao normal.
23.01.2012
Acordei novamente meia boca, tentei fazer que meus
dois travesseiros que são de espuma da NASA se transformassem na Iara, até um
ponto deu, mas a fantasia já necessita de apoio real e nesta mescla do que
parece impossível de voltar acontecer fui tomar meu chocomilk com bolacha.
Agora estou parado em um posto Refinor, mesma
bandeira do posto que eu dormi, já no
chaco argentino, excelente o atendimento e vão me fornecer água para a casa,
aproveitei e tomei meu primeiro café preto do dia. Finalmente encontrei a água
mineral correta para meu ônibus, chama-se Kin e a embalagem é gordinha em
relação as que conhecemos e com isto se encaixa perfeitamente bem nos suportes.
O Senhor Guilherme pode construir bem a parte elétrica e hidráulica da casa, mas
não entende nada do que é efetivamente usar uma casa rodante diariamente, o
cockpit deixa muito a desejar assim como o guarda roupa no fim do ônibus.
Explico: Tudo que pode cair com balanço deve ficar para o meio da casa. No meio
às vezes esqueço alguma coisa em cima do tampo de granito, por exemplo, e
quando paro a coisa está lá ainda, agora no fundo o efeito é chicote o que
significa eu ter que estar pendurando os cabides novamente com freqüência. Tem
mais coisas também e são detalhes de falta de conhecimento, de qualquer maneira
mesmo que eu fosse continuar não compraria um motorhome dele pela pessoa que
ele é. Tanto ele como o senhor Natalin da Vettura Motor homes não assumem suas
responsabilidades de pós venda e isto para mim é nojento. Motor home hoje tem
nome e é Trailemar, fazem besteira fazem, só que não tem nenhum arrasta pé para
consertar, além disto, o interior deles ficou imbatível em praticidade e a
construção sempre é em uma carroceria de ônibus oficial o que garante uma
guiada perfeita. Bom, a minha Scania está com uma guiada perfeita, se fosse
então com uma carroceria oficial então...
Curiosidade: Os passarinhos adoram uma carne quente
e boa parte dos postos a gente os vê entrarem nos radiadores dos caminhões para
comerem os insetos colados, agora no momento estou com a frente da casa cheia
de pássaros, para o azar deles meu motor é traseiro.
Agora chega de dança de banho, vou fazê-lo já e
trocar de roupa, a Maria não vai entender porque quase não tenho roupa suja, em
compensação as que estão, estão.
Acho que
meu último banho foi em San Rafael, depois disto cruzei os Andes duas vezes,
atravessei o deserto de Atacama, subi, desci etc. Não fez falta e meu cheiro
está gostoso.
Cheiro gostoso? Ilógico, é o hidratante que passei
no Atacama porque a minha pele estava um pergaminho.
Um bando de pássaros para na minha janela para me
ver escrevendo e a máquina está carregando a bateria, quando me levanto eles
somem então os peguei lá fora no chão.
Parafraseando
os pescadores vocês precisam ver as fotos que perdi!
Banho e chega de enrolação!
Aproximando-me (300 km) de Resistência parado para
pernoite em um posto ACA. O chaco é uma reta gigantesca, o inconveniente ser
uma estrada que chacoalha muito embora no nordeste brasileiro ela fosse
considerada autopista, perigo de animais na pista e pombas. Sobre esta última
uma conversa em outra época com o Wilson Zocolotte Junior, atirador de skeet inclusive
representou o Brasil nos jogos pan-americanos e vinha atirar em pombas no
Uruguai, eu fiquei revoltado e ainda continuo sobre atirar por esporte em
qualquer coisa viva com exceção de humanos, mas de fato ele tinha razão, estas
pombas são ratos com asas e estão em milhões nesta região e sei pela vinda que
entopem a província de Misiones também. Três não procriarão mais.
24.01.2012
Perto de Posadas e depois Brasil parado em um posto
Petrobras argentino.
Quando eu digo que quem não quer evitar achaques
não passe em Corrientes e Entre Rios. Alguém pode perceber que é obrigatório
passar por Corrientes só que neste caso é a cidade, aí se vira por Resistência
e vai-se ou para Salta ou Mendonza.
Este 600 quilômetros que faltam para a divisa são
meio chatos, asfalto tapete, porém clima quente e muito úmido já que a estrada
segue paralelo ao Rio Paraná.
25.01.2012
Escrevendo do posto Três Pinheiros já próximo a
Guarapuava. Com uma fome tamanho família o bufê já tinha sido retirado, mas
aqui é Brasil e quando queremos ser gentis somos imbatíveis, com presteza o
responsável falou para mim se servir de saladas que ele ia providenciar um
arroz com um bife. Eu que não como maionese em restaurante enchi o prato com
ela, beterraba, maionese doce, picles e enquanto ia pondo comia uns pedaços de
melão, o bife que veio era de um tamanho de uma tampa de panela grande. Então
aqui estou eu que tinha secado o estomago trinta dias dilatando-o ao máximo
numa vez só.
Detalhe interessante que não deu certo fui eu ligar
para o Diogo e neste caso eu pararia em Cascavel para jantarmos juntos, ele
estava em Curitiba e vindo para Cascavel então combinamos de jantarmos aqui.
Ele não estava e entendo porque, eu liguei de Foz e ele estava saindo de
Curitiba, é quase o dobro de horário de viagem.
Hoje acordei novamente esquisito, pelo menos um
pesadelo me recordo, eu perdido com o motorhome tinha horário marcado com o
Pedro Lorca um chileno amigo que mora em São José dos Pinhais e não conseguia
me fazer entender com quem tentava informações, aí veio um guindaste e
arrebentando o motorhome o colocou em cima de um caminhão. E pior, sonho em
castelhano e nem assim consigo entender o que eles falam.
A viagem até Foz foi tranqüila e rápida e chegando a
Puerto Iguazu fui até o posto YPF para colocar diesel o suficiente para acabar
com meus pesos argentinos, não havia diesel então...
Então fui ao Duty Free Argentina e comprei um monte de
coisas para presentear, como as bebidas eram a coisa mais bonita alguém vai
ganhar gin da Inglaterra, vodka da Polônia, licores da Itália, amarula não sei
da onde, licor de uísque que deve ser da escócia e alguma coisa francesa que
não lembro mais. Este shopping na terra do ninguém é altamente sofisticado
então impossível tentar comparar ele com o Paraguai. Completei com R$65,00. Em
pesos argentinos tinha aproximadamente $600,00.
Brasil, Brasil, parei de cara no posto Esso (o
mesmo da outra viagem que consertou meu ar condicionado) chamado Paradão. Não
existe na Argentina nenhum posto que se assemelhe a este, meu propósito
consertar o Taco-ar quebrado no pedágio chileno. Tinha tudo e fizeram um
serviço de primeira por R$110,00. Fui abastecer e não tinha descido da casa e
já estavam lavando meus vidros. Aqui não tem horário de sesta. Duas coisas
matam o operacional do argentino: excesso de mate (Veja o que acontece com os
gaúchos) e este horário de trabalho maluco.
26.01.2012
Como é bom acordar cedo e ter café de coador e pão
com manteiga na chapa.
Estacionado na minha baia em São José dos Pinhais
confiro o hodômetro 62.946 quilômetros, 13.439
percorridos.
Correções que faço hoje dia vinte e sete:
O pedágio só é caro no autopista de Mar Del Plata e
nem tanto comparado aos absurdos brasileiros, os olhos de gato nesta estrada
são iluminados e o efeito é magnífico.
Rosa a mãe da Gladys no camping em San Rafael em
conversa comentou que sua razão de vida é Evita e Perón. Disse-me que em 1.950
nesta mesma região não havia qualquer tipo de moeda e tudo era feito por
escambo, foi Perón do partido Justicialista quem introduziu segundo ela o
dinheiro na região. Uma história curiosa e não vejo porque não ser verdadeira
já que ela tinha mais de vinte anos de idade e devia saber. E também o motivo
dos Kirchner estar no poder já que são
peronistas.
A quantidade de postos de combustível aumentou
bastante e acredito que não se rode mais que 300 ou 400 quilômetros. Agora se
têm combustível no estoque é outra situação.
Não consegui uma explicação clara porque pela
segunda vez não consegui gostar da minha estadia no Chile, o Atacama me levou
ao êxtase, as praias chilena são ótimas, as estradas boas com exceção dos
pedágios e me questiono se não é isso, uma maldade interna que faz o simples
ficar difícil.
Não gosto da língua castelhana, nos homens não
combina, nas mulheres deixam-nas vulgares e o som me irrita. Difícil acontecer
eu me mudar para a Argentina por causa disto.
E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr













































14 comentários:
Tio, adorei tudo:
o modo como escreve, nos levando de carona...
as fotos maravilhosas...
E como é capaz de relatar algumas situações de modo tão peculiar, demonstrando o que está sentindo...
Bj do sobrinho Alexandre
PS: envie-me seu e-mail para
alebu###@gmail.com (v. sabe decifrar o #).
Grande Leopold,
Fantástico a maneira que descreveu a sua viagen, podemos imaginar como foi, e imaginando... deve ter passado por poucas e boas...
Fico feliz em ter participado na sua viagem, almoçando com o amigo aqui em Cascavel, é sempre muito prazeroso rever o amigo!
Na volta da sua viagem e minha estavamos com uma diferença enorme de tempo de viagem, mas quando nos falamos estava distraido e não pensei nisto, mas de qualquer forma valeu!
Forte abraço,
Diogo Pachenki
Obrigado pelas palavras Alexandre e Diogo, é muito, muito mesmo bacana ver vocês participando de um pedacinho da minha vida assim como eu também participo de pedaços da vida de vocês!
Realmente grande Leopold, único e singular,parabéns por todo o material.
Nós é que temos esse privilégio, cedido por ti, para desfrutar de tantas belezas.
Forte Abraço.
Geneci.
Querida amiga Geneci obrigado pelas suas palavras. Desejo-te muito de bom na sua vida e já deixo um até breve, pois março está próximo.
Prezado Leopoldo, fantástica a viajem proporcionada através do seu minucioso relato. Espero também poder realizarnum futuro próximo esta viajem.
Fora isto, e com a sua licença, finalizo meu comentário te dizendo: Volta para a tua amada!
Grande abraço.
Eugenio C. Stramosk
Rio do Sul - SC
Caro Eugenio a Argentina e o Chile proporcionam coisas únicas para se ver quanto aos quesitos beleza e grandeza, a primeira então com um povo muito gentil fora da temporada de férias.
Quanto a minha amada teria voltado ao primeiro sinal, porém minha impressão é que ela atingiu o nirvana em relação ao amor comigo quando até agora se mostrou indiferente.
Muito obrigado pela sua visita e suas palavras.
Que viagem maravilhosa, Leo!
Você somente aprimorou seu bom gosto, continua o mesmo amigo sensível que sempre lembro com carinho... Que muitas outras viagens maravilhosas se realizem. Um forte abraço,
Obrigado meu amigo escritor e poeta Roberto!
Caro Leopold
Gostei da sua viagem e do seu relato. Você é um poeta.
Com relação ao comboio, dificuldades existiram. Porém, todas contornadas. Com exceção do Erydson, não fizemos o trajeto previsto por motivos alheios a nossa vontade. O Carlos e a Débora tinham que estar de volta ao Brasil até o dia 08/02/12, pois a carta verde deles vencia. Assim como a cobertura do seu seguro era para somente 45 dias. Em El Calafate, percebi um vazamento de óleo no motor do meu equipamento (tubulações da turbina). Em conversa com o Erydson, aconselhou-me a não prosseguir a viagem sem verificar o que estava acontecendo. Desta forma, considerando que o Carlos resolvera voltar de El Calafate, aproveitei a sua companhia para retornar também, caso viesse a necessitar de socorro.Fomos até Rio Gallegos, na Renault e eles disseram que era somente uma tubulação solta, devido às trepidações no rípel. Fomos até Buenos Aires e pegamos o Buquebus para Colonia del Sacramento no Uruguai. Percorremos até Punta del Leste e voltamos para Rivera. Compramos uns vinhos e entramos no Brasil. O Carlos segui para Caxias do Sul e eu para Curitiba. Chegamos dia 08/02, tudo na mais perfeita ordem. Entre em contato conosco, meu email: rogeriomarcolino@gmail.com
Abraços.
Oi Leo ,continuo lendo seus blogs. você escreve muito bem, bem que poderia se tornar um livro se é que já não estar em andamento.Ias colocar muita gente boa no bolso.
Boa sorte!
Betiza
Fortaleza-Ce
Obrigado pelas palavras Betiza, você poderia, por favor, entrar em contato comigo pelo e-mail joaoleopold@minon.com.br
Oi meu grande irmão Léo,adorei tudo o que escreveu,e para fazer este comentário tive que me preparar psicológicamente,pois o que tenho a dizer sobre sua vida e sua história, daria um outro livro.Léo, grande irmão, grande professor, grande companheiro,amigo fiel.Se for escrever aqui tudo o que vc é, ficaria aqui muito tempo.Eu vivi junto com vc muito do que vc viveu, e hoje o que tenho a te dizer é: deixe o passado como grandes lembranças, algumas ruins e outras maravilhosas, porque vc meu irmão, teve muitos momentos de felicidade. E entre uma felicidade e outra houve decepções,tristezas,revoltas etc... mas um dia nós conversamos sobre felicidade e vc me disse que a mesma não existe, e que na vida existe momentos felizes, não existe uma felicidade contínua.Léo vc fez tanta gente feliz, e agora tudo o que eu quero e se depender de mim, faria tudo para que vc seja ou viva os momentos mais falizes deste mundo,porque vc merece meu grande irmão.
UM GRANDE BEIJO DE SUA IRMÃ que sempre te admirou, tenho tanto a agradecer por tudo que me ajudou e me ensinou.
SOLANGE ALVES DE SOUZA TAMBOSI.
Querida Solange – Obrigado pelas tuas palavras e digo embora não sendo minhas as palavras:
“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para eu dividir um planeta e uma época com você.”
Carl Sagan
Postar um comentário